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Círculo da Inovação

O revivalismo cheira bem

Francisco Neto

CEO Ach Brito

Gerir Talento

O revivalismo cheira bem

Ana Maria Pimentel

Francisco Neto deu a volta ao mundo com o Porto no coração e ali voltou para levar o cheiro de Portugal ao mundo com a Ach Brito

Depois da FEP, Faculdade de Economia do Porto, onde tirou Economia e percebeu que “gostava de fazer acontecer” e de “pôr as mãos na massa em vez de teorizar”, entrou na primeira edição do programa Contact que era mais ao menos como “conhecer a noiva à porta da igreja”. Teve “sorte dupla”: resultou num casamento feliz daqueles “na melhor cidade do mundo, uma Nova Iorque tropical”, pois aos 24 anos mudava-se para São Paulo, um estágio de seis meses na Logoplast que se transformou em três anos.

Da maior cidade do mundo ruma para BridgeWater, “uma aldeolazinha no sul de Inglaterra”. Quatro anos para aprender a “cultura assumida do cumprimento”, já como diretor geral. Esta foi apenas a segunda das muitas viagens que fez na Logoplast até ao dia em que tomou a corajosa decisão de voltar ao Porto e pôr a promissora carreira dentro da Logoplast em espera, ainda que na altura não o soubesse.

Passa um ano e meio no grupo Amorim quando a corticeira vive em período de mudança. Mas como não há amor como o primeiro, em 2006 volta à Logoplast. Agora era a Europa de Leste os EUA que o esperavam. Com o primeiro filho a caminho mantém-se fiel ao mantra “ou vamos todos ou não vai nenhum”. Assim foram para Praga. Aliás, a família foi para Praga, o Francisco continuou a correr o mundo. Depois de paragens por Cascais, EUA, Canadá, México, Índia e Malásia, a volta ao mundo, entende que a vida de aeroporto, o fazer e desfazer malas “podem tornar-se um vício”. Francisco soube parar antes de se tornar um problema. O “apelo da família” fala sempre mais alto.

Volta para a cidade do coração. Em plena crise da Vicaima “aceita o desafio de fazer tudo ao contrário”, numa época que, com a chegada da troika, numa empresa de construção civil importava “emagrecer e adaptar o negócio a uma nova realidade”. Foram “três anos francamente bons”. Até que mais um passo de coragem o faz tirar um ano sabático. A “responsabilidade geracional”, diz Francisco (o “apelo da família” acrescentamos nós), fê-lo ir para a padaria do sogro, a Cristal. A par deste desafio pôs as mãos na massa com Rui Moreira na recuperação do mercado do Bolhão.

Cheirava tudo bem, até vir o cheiro a “alma, a história” da Ach Brito que “faz parte do imaginário coletivo”. Desde setembro que está a fazer renascer uma marca com 130 anos “sem a estragar”. Não tem sido preciso muito: “Está tudo lá, continua a ser tudo verdade”.

UM DESAFIO

“Um líder tem que, acima de tudo, ser inspirador e ter autoridade natural – estas virtudes são raras e creio que inatas, não se treinam nem se aprendem.

No início da minha carreira tive a enorme felicidade de conviver durante mais de 10 anos com dois líderes de um magnetismo fora de serie, que segui e servi com entusiasmo e orgulho inigualáveis, num contexto de enorme e crescente exigência, alimentado pela sua determinação e dinamismo, energia positiva, sagacidade desconcertante, observando a sua capacidade de trabalho e velocidade de pensamento, num espírito visionário e sonhador, sem fronteiras no pensamento e na ação. Contagiante, inebriante até. Melhor escola seria difícil quando penso no mote “gerir e gerar talento”.

Fruto desta aprendizagem, vejo com satisfação que em várias ocasiões foram pessoas de equipas que eu chefiei que ocuparam o lugar que deixei vazio ao abraçar novos desafios ou responsabilidades. Pessoas que tinham sido recrutadas por mim sem experiencia concreta na função, sem exposição nos desafios da gestão internacional, mas que desde logo expus às mais diversas situações, com quem imediatamente partilhei tudo o que sabia, a começar pela forma e o “porquê” de pensar e abordar cada situação. Porque tudo se ensina, tudo se aprende, assim um e outro estejam nessa disposição. Pessoas cujo mérito foi observar, ouvir, acreditar no processo e trabalhar muito – mérito esse aliado à competência intrínseca sem a qual nada se alcança, porque não falta quem olhe mas nada veja. Mas neste processo quem lidera tanto pode, de facto, gerar talento como diminui-lo, adormece-lo ou afasta-lo – porque teme a ameaça de quem está ao lado ou abaixo, porque não alimenta as suas ambições, porque arrasta os assuntos e não decide (erro clássico e fatal), porque não dirige nem corrige, pelo exemplo, todos os dias, porque não premeia, porque não dá visibilidade ao trabalho de cada um que se destaca.

Para além dos resultados entregues aos acionistas, entre novas geografias conquistadas, fabricas inauguradas, contratos ganhos, sistemas montados, reestruturações conseguidas, ebitda’s e afins, o meu maior sucesso terá sido deixar em cada organização equipas mais capazes, seguras de si, com garra e identidade própria, preparadas e motivadas para agarrar oportunidades e gerar (ainda) mais valor.”

UMA IDEIA

“Como povo nação que somos, à qual tão orgulhosamente gosto de pertencer, temos características fantásticas, da adaptabilidade à afabilidade, da tolerância (tão escassa nos dias que correm) à humildade e modéstia (quase) excessivas. Tendo vivido fora de Portugal largo período, embora nos últimos anos de regresso por ser este o melhor sítio do mundo para criar uma família com raízes e valores, fico derrotado perante duas evidências que se manifestam, nos atropelam e esmagam:

- A inveja, espécie de desporto nacional que lamentavelmente apenas demonstra a pequenez de um povo;

- A entropia dos poderes públicos, a incapacidade para executar ideias e projetos em tempos minimamente aceitáveis, seja pela mediocridade dos agentes ou simplesmente pela teia em que aqueles que decidem servir em cargos públicos se enredam, pelas mais diversas razões. O progresso e bem-estar coletivo merecem mais ação executiva capaz, mais gente à sua volta, igualmente capaz e desinteressada, que apenas quer “fazer” em vez de “ir fazendo”… Será este porventura um sonho de um jovem gestor, gostaria francamente de acreditar que não.”

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