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Círculo da Inovação

A portuguesa da Google que trabalha em Londres para os Emirados e para a Rússia

Inês Cavaco

Gestora Google

Digitalização

A portuguesa da Google que trabalha em Londres para os Emirados e para a Rússia

Ana Maria Pimentel

O Google apareceu em Portugal por volta de 2008 e mudou a vida de toda a gente que navegava na internet sem lhe conhecer as potencialidades. No mesmo ano, a vida de Inês Cavaco mudou mais que a de toda a gente graças à empresa americana

Inês tinha o percurso perfeito, de fazer qualquer página de currículo uma obra de arte. Licenciada em Economia pela Nova, à semelhança da maioria dos colegas, entrou numa consultora. É no mundo da consultoria que inicia o percurso internacional até chegar a Silicon Valley onde aprendeu que se se focar demasiado tempo no presente vai perder o futuro, mas já lá vamos.

Cinco anos de viagens entre Portugal e Espanha, cinco anos de travessias do atlântico até ao Brasil, cinco anos de aprendizagem “na melhor escola” e uma vontade que não conseguia calar. Aquela era a hora. Corria 2007 quando arrisca o que até aí tinha criado com a certeza de um caminho que os vintes permitem mais que os quarentas. Despede-se da BCG e cria uma startup no Brasil: a Sitawi. O slogan da empresa – Finanças do bem - tem sotaque e é autoexplicativo. Se a algumas empresas faz falta sensibilidade social, outras ONG precisam de aprender truques de gestão, ali o objetivo era trabalhar na convergência de empresas com ONG. Começou bem e com força, não fosse aterrar em Portugal uma ideia, uma novidade, uma tal de Google que quase ninguém conhecia nem sabia bem o que era.

A Sitawi é vendida, uma decisão que não custou tendo em conta a escolha que aí vinha. 2008 há-de ficar para sempre gravado a cinzel na vida da Inês, afinal, foi o ano de todas as seleções. Tinha uma proposta de uma grande empresa, “muito conhecida e muito boa” lembra; no outro prato da balança a tal Google. E este último lado estava tão pesado que a família e os amigos temiam que estivesse “doida” por preferir uma “empresa que ninguém conhece.” Uma mistura de obstinação e teimosia fê-la arriscar. Já lá vão oito anos “de casamento com a Google, de paixão enorme pela empresa e pelo negócio”, tanta que nem se lembra que aquilo é um trabalho, tão forte que já está cheia de “googliness” que a faz estar constantemente a inovar.

O crescimento da Google confunde-se com o a evolução da portuguesa dentro da empresa. Não sabe bem a que se deve isto tudo, mas claro que “os soft skills e o QE (quociente emocional) são muito mais importantes que a base técnica”, que também não descura: a faculdade ensinou-a a pensar, a consultoria ensinou-lhe a linguagem do mundo do trabalho no contacto diário com empresários.

Os primeiros quatro anos de Google foram em Portugal quando já não podia subir mais na empresa começou a correr o mundo até chegar a Mountain View, Silicon Valley para os amigos. Este ano as saudades apertaram, voltou para a Europa. Em Londres, onde diz sentir-se em casa, gere o programa estratégico e as operações da Google nos Emiratos Árabes Unidos e na Rússia. Com 34 anos espera ficar por ali, criar uma rede e, acima de tudo, continuar a crescer.

UMA IDEIA

“Incluir Programação como disciplina obrigatória para todos os alunos em Portugal. Temos de preparar os nossos jovens para os empregos do futuro e isso significa não só saber trabalhar com computadores mas também ser fluente em linguagem de código e ter capacidades de programação. Tal como o inglês permitiu à minha geração competir à escala global, acredito que a linguagem informática será uma ferramenta essencial para que as gerações futuras sejam capazes de inovar e estimular a economia, e para isso temos de começar a investir agora”

UM DESAFIO

“O meu principal desafio nos últimos anos tem sido ajudar as empresas a encararem a revolução digital como uma oportunidade e não como uma ameaça. Para empresas que nasceram e cresceram antes da era digital, a adaptação necessária à nova realidade é quase como nascer de novo, sob pena de se tornarem irrelevantes à medida que startups reinventam as indústrias mais tradicionais como a hotelaria (Airbnb), transporte (Uber), retalho (Amazon) ou banca (TransferWise). Este processo implica que as empresas não só se adaptem a um novo consumidor conectado, informado e com muito mais escolhas, mas também que alterem o seu modelo de negócio para poderem competir com startups que já são criadas em cima das possibilidades que o digital oferece, como por exemplo com custos praticamente nulos de aumento da base de clientes, ou a escala do mercado global.

O que torna este desafio ainda maior é que mais do que se adaptar a uma realidade concreta, as empresas hoje têm de estar preparadas para um ritmo de mudança muito mais acelerado. Isso requer um processo de adaptação aberto e fluído que lhes permita antecipar as principais mudanças no seu negócio. Tenho trabalhado com centenas de empresas de todos os tamanhos, das mais variadas indústrias e em diferentes geografias, e posso dizer que todas têm condições para alavancar a sua experiência e continuar a ter sucesso, desde que consigam adaptar-se de forma rápida. Tipicamente somos muito mais rápidos a adotar novas tecnologias como consumidores do que como profissionais, e nem sempre este movimento tem sido tão rápido como seria desejável. Tento pôr este tema na agenda dos CEO e trazer a experiência de outros mercados e o conhecimento do digital para estimular e ajudar no processo de mudança. Porque quando as gerações que já nasceram no digital chegarem à idade adulta e forem a principal massa de consumidores e empreendedores, poderá ser tarde demais”

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