Um projeto Menu

Círculo da Inovação

À saúde do avô

Ema Paulino

Direção Projetos e Serviços Grupo Holon

Criar Valor

À saúde do avô

Ana Maria Pimentel

Em 100 anos é a primeira mulher na Federação Nacional Farmacêutica. Aos 26 anos já estava na direcção da Associação Nacional de Farmácias E no meio disto tudo continua a ser o que sempre foi: farmacêutica, agora na direção de projetos e serviços no Grupo Holon.

Não se percebe se foi Ema Paulino que escolheu a saúde, se foi a Saúde que escolheu Ema. Na verdade pode-se dizer que Ema escolheu este caminho por vocação, embora haja um peso hereditário muito acentuado. Ao longo da conversa com Ema Paulino vai-se discutindo a importância da farmácia, dos farmacêuticos, assuntos que vão sendo pontuados pelas lembranças. As lembranças do avô, farmacêutico, “que era o pilar da saúde em Almada”.

Como homenagem ao avô, por não saber fazer as coisas de outra forma. Ema faz a farmácia em que acredita e que pensa ser a única forma de a fazer, um ponto central da comunidade e em equipa. É assim, aliás, que faz tudo na sua vida. O trabalho em equipa é aquilo que lhe dá “mais gozo” e vai, com muita ginástica, aliando as suas “competências e características às de outras pessoas até levar à acção”. Aprendeu, desde a altura em que era líder da Associação de estudantes e da Associação Portuguesa dos alunos de farmácia que o interessante não é “rodear-se de pessoas iguais” a ela, mas sim de pessoas que a complementem.

Como uma superheroína tem uma característica especial que tem a ver com a capacidade de argumentação. É que Ema detesta conflitos e desde nova aprendeu que tem que “levar água ao moinho” sem entrar em conflito com os outros.

UMA IDEIA

“À medida que a sociedade evolui, existem alterações demográficas e culturais que exigem novas abordagens. Assim, a minha proposta seria a de fazer um melhor aproveitamento do contributo que as pessoas podem dar à sociedade e ao país, após a chamada ‘idade da reforma’. Muitos de nós focamos a nossa atenção no que os jovens podem fazer pelo país por via da inovação que introduzem nas empresas, e em como aumentar a sua produtividade. Contudo, parece-me que se dá pouco ênfase ao contributo que as pessoas podem dar ao longo do seu ciclo de vida, dada a sua experiência adquirida e vivência. Envolver pessoas com estas características em projetos e atividades que permitam obviar as dificuldades sentidas pelas famílias com os horários de trabalho alargados, pessoas com doenças mais incapacitantes (necessidade de fazer compras para idosos acamados, por exemplo). Organização de atividades lúdicas para pares e crianças, entre outras. Esta proposta tem ainda um efeito secundário importante, que é o de manter ocupadas pessoas que ainda têm necessidade de se manter ativas (de forma a não sofrerem deterioração da sua função mental e cognitiva), uma vez que a esperança média de vida aumentou significativamente nas últimas décadas. Sabe-se que pessoas que mantêm um propósito de vida vivem mais anos, com maior qualidade.

A longo prazo, a minha proposta seria mesmo a de acabar com o conceito da reforma tal como ele hoje existe. Não se trataria de uma imposição, mas de uma adequação às capacidades e vontades de cada um de nós. Faz tanto sentido prolongar a vida ativa de uma pessoa para lá da sua capacidade de gerar valor, quanto terminá-la antes de se esgotarem os seus contributos. Por outro lado, é pertinente adequar as funções de cada um às características e capacidades, que são certamente diferentes ao longo da vida”

UM DESAFIO

“Conseguir subir na cadeia de valor pressupõe, antes de mais, reconhecer o que é verdadeiramente importante para as pessoas, mas que pode ainda não ser percecionado pelas mesmas como uma necessidade. Ninguém sabia que precisava da internet antes de ela surgir. Hoje, não saberíamos viver sem ela.

Na saúde, que é a área em que exerço a minha atividade, fala-se muito na assimetria de informação entre os profissionais de saúde e o cidadão, fruto da formação específica dos primeiros. Tradicionalmente, acreditava-se que as pessoas, tendo consciência desta assimetria, acatavam simplesmente as indicações transmitidas como inevitabilidades incontestáveis. Hoje, sabemos que não é assim. As pessoas querem ser envolvidas nos processos de decisão, apesar de que cada um pode querer fazê-lo a um nível diferente. E isso deve ser respeitado. Para além desta característica, na saúde o que fazemos passa muitas vezes pela prevenção de episódios, o que nem sempre é visto como uma prioridade, quando se compara com tudo o resto em que a perceção de benefício é imediata.

Nesta perspetiva, o trabalho que as equipas em que me insiro têm desenvolvido procura superar este grande desafio: envolver a pessoa no seu processo de saúde, na medida em que esta quer ser envolvida, motivando-a a modelar os seus comportamentos atuais e futuros face a uma necessidade, talvez longínqua, e pouco percecionada pelo próprio. Neste contexto, o que temos feito é “mostrar o sapato” (ninguém “compra” nada antes de ver), ou seja, demonstrar à pessoa como é que o farmacêutico a pode ajudar a tirar o maior partido da terapêutica. E mudar a perceção do que as pessoas pretendem quando entram numa farmácia, que na verdade não é a acessibilidade a um produto, mas o controlo de uma (ou mais) patologia(s). Subimos, assim, na cadeia de valor, quando disponibilizamos às pessoas o que elas realmente precisam: em troca de uma ‘receita médica’, anos de vida com qualidade”

Criar Valor

Ver mais