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Círculo da Inovação

25 conclusões do círculo

Tiago Oliveira

Mario Joao

Em setembro de 2016 
realizou-se no átrio do edifício Impresa a terceira sessão 
de trabalho, uma breakout session para debater
a criação de valor

Balanço Durante seis meses, 100 inovadores — com idades entre os 25 e os 45 anos — entraram no Círculo da Inovação, projeto do Expresso, NOS e SIC Notícias, com o alto patrocínio da Presidência da República. De julho a dezembro, esta nova geração de gestores participou em cinco debates com um formato inédito: mesas redondas onde um microfone quadrado era atirado de mão em mão para que os selecionados deixassem soluções concretas para o futuro das empresas em Portugal. Foram sessões de trabalho dedicadas aos desafios do projeto: Gerir e Gerar Talento, Digitalizar, Criar Valor, Focar no Consumidor e Trabalhar em Rede. Nestas páginas deixamos as grandes conclusões. Algumas poderão ter impacto. Reveja os 25 programas exibidos na televisão, conheça os perfis dos inovadores, as suas ideias para o país e os desafios superados por eles no nosso site

Gerir e gerar talento

O dinheiro não vale tudo
Na cerimónia que marcou o arranque do projeto do Expresso, NOS e SIC Notícias no Palácio da Ajuda, em Lisboa, as intervenções passaram todas pelo mesmo ponto: o significado de criar valor. A componente monetária pode ser a mais associada à expressão (e é um fator muito relevante), mas o consenso afastou-se do lucro e focou-se nas ideias e no talento. Ou seja, criar valor acrescentado com a união das pessoas por um mesmo objetivo. E esse pode ter ainda mais impacto.

Ao serviço dos cidadãos
Para o CEO da NOS, Miguel Almeida, não pode haver qualquer dúvida: ultrapassar desafios e obstáculos só faz sentido se depois as respostas inovadoras forem colocadas ao serviço dos cidadãos e, consequentemente, contribuírem para o desenvolvimento da sociedade. Uma ideia que o CEO do grupo Impresa, Francisco Pedro Balsemão, subscreveu por completo, acrescentando que a tranquilidade na liderança, para aproveitar estas oportunidades, só é possível quando se escolhem as pessoas certas.

Atrair e conectar talentos
Para Sarah Harmon, responsável do LinkedIn na Península Ibérica cuja intervenção marcou o final da sessão de abertura, há poucas ou nenhumas dúvidas que a inovação é um dos grandes fatores na atração dos melhores talentos. Mas que ninguém consegue escapar à necessidade humana de fazer ligações. Daí o papel essencial de empresas como aquela em que trabalha para ligar empresas a candidatos. A conectividade pode fazer a diferença entre o sucesso e o insucesso.

Igualdade de género
O Presidente da República mencionou a disparidade entre homens e mulheres nos cargos ao reparar nos números dos 100 selecionados para o projeto: “Um terço de talentosas para dois terços de talentosos.” Uma diferença que Marcelo Rebelo de Sousa espera ver evoluir para que a representação seja mais igualitária. Não só no Círculo da Inovação, mas principalmente no panorama geral da sociedade.

Arriscar para inovar
“A importância da palavra loucura quando se fala de inovação” foi lembrada por Francisco Pinto Balsemão, para recordar o momento em que há 42 anos decidiu enfrentar o lápis azul da ditadura para lançar o semanário Expresso. Um exemplo trazido à discussão pelo chairman da Impresa para demonstrar a importância de dar um passo em frente para arriscar e criar valor. Sem nunca ficar a descansar perante as batalhas ganhas e procurando sempre novas formas de crescer.

Digitalizar as empresas

Desmistificar o ensino
Entre as soluções e temas que passaram pela mesa redonda à volta da digitalização no Pavilhão do Conhecimento, em Lisboa, a educação destacou-se como um tópico merecedor de especial preocupação. Todos reconheceram que há falta de talento científico em Portugal, e não têm dúvidas que o problema é a Matemática. Com um sistema de ensino que permite que se fuja à disciplina que ensina a pensar, podemos perder o pelotão da revolução tecnológica. Resta estimular desde cedo a ciência e a tecnologia nas escolas.

Repensar a questão fiscal
A fazer lembrar uma frase que o futebol tornou famosa, pode afirmar-se que Portugal “é uma faca de dois legumes.” É o que se retira das opiniões dos gestores convidados nesta breakout session para quem é óbvio que as vantagens do país continuam a andar de mão dada com as desvantagens. Num prato da balança as nossas valias naturais, que encantam todos os estrangeiros, no outro as leis fiscais e laborais, que afastam empresários rumo a máquinas burocráticas mais exequíveis.

Mudar a mentalidade
Os inovadores concordaram no Centro Ciência Viva que o processo de transição exige uma mudança de mentalidade na realidade corporativa. Uma revitalização que não é imediata e exige um planeamento que envolva e “converta” todos os membros da empresa à nova realidade digital. Foi o que se passou na Cisco, como partilhou a CEO Sofia Tenreiro, e que obrigou a novas soluções de Recursos Humanos.

Estimular aproximação
É preciso uma “aproximação entre as grandes empresas e as startups”. É a garantia do cofundador da Beta-I, Ricardo Marvão, para realçar que é um processo benéfico (e necessário) para as duas partes. Um estreitar de relações que se pode refletir na partilha ou compra e venda de soluções. No fundo é uma forma de dar novo ímpeto e bases mais sólidas à inovação, principalmente numa altura em que o frenesim tecnológico nunca foi tão rápido.

Transformar os negócios
“O menos relevante é o digital. Trata-se de transformação de negócios. Os processos de transformação digital estão muito centrados nas empresas e pouco nos consumidores”, garantiu o CEO da Plot, Rui Borges. Na sua opinião, perceber este conceito é o ponto de partida essencial para se proceder a qualquer medida relacionada com a digitalização e aproximar os principais intervenientes. É essencial ter presente que digitalizar não é só recorrer a mais tecnologia mas também integrar o fator humano.

Criar valor

Ouvir as equipas
O trabalho de excelência que fizeram e colocaram-nos no Círculo da Inovação (e na terceira sessão dedicada a Criar Valor), não teria o mesmo resultado sem o talento das suas equipas. Durante a breakout session, os gestores sublinharam que sem o coletivo não poderiam nunca fazer as empresas voar. E, muitas vezes, temem não saber ouvi-las e deixar de ser um exemplo positivo. A importância do coletivo mostrou-se consensual. A verdadeira força da empresa e o motor de um diálogo produtivo.

Não é preciso reinventar a roda
Foi um tema que gerou opiniões divergentes, com destaque para Miguel Pina Martins. Para o fundador da Science4You, a pedra basilar do desenvolvimento será sempre a criação de valor. “Não é preciso reinventar a roda ou criar uma nova Google.” Há muitas formas de inovação que permitem a mais pessoas terem sucesso e com reflexo para o país. Onde há inovação há geração de valor acrescentado. E tal não implica criar um produto a partir do zero.

Nascer e pensar global
As exportações e a internacionalização são fatores essenciais para as empresas criarem valor e crescerem de forma sustentável. O mercado português é pequeno, em muitos casos já está saturado, e por isso a única opção que resta ao empreendedor é a internacionalização. Todos concordaram que temos de nos especializar e perceber onde podemos competir melhor com os outros para atingir o dinheiro e a sustentabilidade — um lugar ao sol no mercado global.

Traduzir vidas em euros
A criação de valor andou de mão dada com a geração de dinheiro até que Pedro Oliveira, do Patient Inovation, questionou: “Até parece que a Wikipédia e a TedX não criam valor nenhum. O Patient Inovation não criou valor? Isto tem impacto.” O investigador trabalha numa plataforma internacional com inovações feitas por doentes que aprenderam a lidar com as suas doenças e que depois a Patient encarrega-se de investigar e patentear para que outros beneficiem dessas inovações. João Ricardo Moreira, administrador da NOS, e um dos moderadores dos debates, lembrou que o “país precisa de valor traduzido em euros”. Ou melhor: as investigações podem traduzir-se em vidas e... em euros.

A importância de discutir
“Hoje temos mais sentido crítico. Estamos mais próximos dos clientes e das suas dificuldades. O espírito de discussão de ideias é fundamental e sinto que as pessoas ainda não falam umas com as outras.” A Head of Corporate Finance do Montepio, Ana Almeida, acredita que este é um dos grandes aspetos para a criação de valor em Portugal.

Focar no consumidor

Contar uma história
A necessidade de transformar produtos em narrativas foi a grande conclusão da breakout session dedicada ao Foco no Consumidor, no edifício da NOS, em Lisboa. Tardou, mas os gestores portugueses percebem agora que vender um produto, entrar na mente do consumidor, é contar-lhe uma história. Sem esquecer a importância de fazer com que o buzz nas redes seja natural aos olhos de quem compra para maximizar as hipóteses de sucesso. Vender implica ter o cliente muito mais presente nas decisões e no processo criativo para que se sinta parte de toda a história.

A omnipresença das redes sociais
Com uma nova geração de consumidores de telemóvel na mão todos sabem que têm de ser mais rápidos e estar na boca de quem os compra e consome. Adaptação e conhecimento foram as palavras mais utilizadas para se descrever a estratégia de presença nas redes sociais, na rua e na cabeça dos consumidores. Num mundo onde os meios preferenciais estão em constante mudança, escolher a mensagem certa assume-se como algo fulcral.

O segredo já não é a alma
Trocar ideias e experiências entre empresas está a ganhar terreno. Estar fechado sobre si mesmo é visto como a opção do antigamente, a opção que não contribui para o bem maior. De ideias abstratas todos passaram a estratégias de marketing e de vendas concretas porque prevalece o sentimento que o sucesso de uns não tem que ser o insucesso dos outros. Pelo contrário: quanto mais histórias de sucesso houver, mais forte será a marca do país.

Físico vs. digital
“As estratégias para as lojas físicas e digitais têm de ser diferentes. Até porque o nosso cliente online é de países como China ou EUA.” Quem o diz é Sandra Correia, CEO da Pelcor, para quem é óbvio que as duas dimensões funcionam de forma distintas, e não apenas como meras extensões uma da outra. É necessário pensar e perceber o que resulta para cada uma e tomar as decisões mais eficazes.

Potencial do material
Luís Filipe Simões, CEO da Sak Project, empresa que faz caneleiras, realça que todos os fatores com impacto nas vendas não podem descurar algo essencial: o valor do produto. “Temos um mercado de 260 milhões de jogadores federados. A partir do momento em que percebemos o potencial do nosso material, descobrimos o nosso foco no consumidor.” Fazer o melhor produto possível não pode fugir da mente dos gestores e tem que continuar a merecer atenção substancial por parte da equipa. Se não, todo o esforço será em vão.

Trabalhar em rede

Partilhar para vencer
As parcerias estiveram em destaque na breakout session que marcou o final da primeira edição do Círculo da Inovação, que decorreu no Espelho d'Água, em Lisboa. Os gestores concordaram que trabalhar em rede tem sido essencial para o nosso país, mas que tal não implica que seja fácil. Parece um contrassenso, mas foi a forma encontrada pelos participantes para descrever o panorama atual. Se Portugal até tem tido sucesso no desenvolvimento de uma marca comum, ainda subsistem dificuldades na abertura de diálogo entre concorrentes diretos e indiretos.

Confiar na rede
São mais as histórias de sucesso do que os casos de fracasso quando entidades empresariais abrem portas e decidem juntar forças. Mas as diferenças acentuam-se quando se fala em concorrentes diretos. Aqui os “mas” foram repetidos para vincar que parceria não é o mesmo que abrir mão de tudo. No entanto, as ligações só podem acontecer numa ótica de sinergia e sempre na base da confiança. É uma questão de perder o medo ou tomar a iniciativa.

O papel dos serviços externos
Sérgio Pereira, da Future Fuel, que vive num ambiente de “paridade”, diz aos restantes que o “ensinamento que uma startup pode trazer para este círculo” tem “muito a ver com a colaboração.” E a colaboração pode, inclusive, chegar de prestadores de serviços externos caso a empresa não tenha dimensão para alocar tantos recursos. Sempre com noção do que esta opção implica a nível de custos e de descentralização de serviços.

Impacto social
É essencial que a expressão “devolver à sociedade” faça parte do ADN de mais empresas para que os clientes sintam um lado mais humano e percebam que o que compram ou investem tem algum retorno. Mesmo que resulte duma pressão social, de um apelo à consciência. Depois de as empresas atingirem os primeiros objetivos e começarem a dar lucro, devem perguntar-se para que estão a utilizar o dinheiro que geram. Hoje, ter lucro e sucesso mede-se por mais perímetros que os ganhos financeiros.

Propósito comum
“Trabalhar em rede não é só partilhar e abrir tudo e ser transparente. Tem de haver um propósito comum, seja fazer lóbi regulatório seja combater um concorrente. É importante ter práticas e valores semelhantes” garantiu Miguel Muñoz Duarte, 
da iMatch, para que o trabalho 
em rede não se assemelhe 
a uma série de parcerias sem 
alma e cujo interesse não ultrapasse o económico. 
É preciso uma estratégia bem pensada para que estas uniões sejam em benefício de todos.

Artigo originalmente publicado no Expresso de 30 de janeiro de 2016

Trabalho em Rede