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Círculo da Inovação

Iguais mas nem tanto assim

Tiago Oliveira

D.R.

LUTA: Não será exagero dizer que a II Guerra Mundial representa um antes e um depois no papel das mulheres no mercado de trabalho. As hostilidades obrigaram à mobilização em massa para duas frentes: a de batalha e a de produção. Se na primeira, os homens continuaram em maioria, a segunda permitiu a muitas mulheres assumirem pela primeira vez um papel ativo e chegarem a cargos que antes lhes estavam vedados. Uma alteração profunda que deixou marcas na sociedade com a ajuda de propaganda que se tornou icónica. É o caso deste cartaz australiano, da autoria de Maurice Bramley, que apela à inscrição feminina no Departamento Nacional de Serviço. Porém, o caminho ainda é longo

A igualdade de género continua a dividir opiniões quanto ao caminho a seguir e ao impacto que ainda tem na sociedade. Um tema fraturante analisado por quatro das 30 gestoras selecionadas para o Círculo da Inovação

"Um terço de talentosas para dois terços de talentosos.” A frase pertence a Marcelo Rebelo de Sousa e a diferença prende-se com os 100 gestores selecionados de todos os cantos do país. Na cerimónia que marcou o arranque do Círculo da Inovação, o Presidente da República não deixou de realçar a disparidade de números entre escolhidos e escolhidas como exemplo dos problemas entre géneros que a sociedade ainda enfrenta. Importa debater, portanto, qual é a verdadeira dimensão desta temática e como contribuir para a igualdade. Este é um verdadeiro quebra-cabeças cuja resposta é composta por várias opiniões e perspetivas. Que o digam quatro das 30 escolhidas para o projeto do Expresso e da NOS.

Inês Caldeira é a primeira mulher e a mais nova de sempre a liderar os destinos da L’Oreal Portugal e não tem dúvidas em afirmar que nos encontramos perante uma “ausência de igualdade” que os números comprovam. Segundo a Pordata, 59,3% dos licenciados em Portugal são mulheres, o que não se reflete no mercado de trabalho. Ganham menos 16,7% e, de acordo com a Comissão para a Igualdade no Trabalho e no Emprego, trabalham, em média, mais 61 dias por ano sem remuneração. Falamos do país europeu onde a disparidade salarial mais se agravou durante a crise. Num ranking de 144 países elaborado pelo Fórum Económico Mundial, Portugal está em 97º lugar. “Estamos longe, muito longe de acabar com isso”, garante Inês. Para a gestora, que disse ao pai “ter medo de falhar” quando ele a encontrou na casa de banho em choro e a vomitar antes do primeiro dia de escola, não se trata de uma questão de “formação ou tempo” mas de “barreiras invisíveis” que se mantêm. Deviam levar a medidas imediatas (“mas talvez não permanentes”) a nível governativo para “acelerar o processo.”

Lei da igualdade salarial
A partir da multinacional — onde em Portugal se atingiu “paridade absoluta” em setembro do ano passado — procura-se dar o contributo, com programas como as Medalhas de Honra para Mulheres na Ciência, que há 13 edições reconhece anualmente o trabalho das mais promissoras jovens cientistas. Não diz que haja “falta de vontade” mas acredita que a “sociedade não está consciencializada para este problema.” Se é claro que existem “benefícios claros na igualdade e diversidade” outro campo salta à vista: “A igualdade salarial devia ser lei.” Sem esquecer a necessidade de as empresas darem “o exemplo” e o papel “essencial” que a “sociedade civil, pais e professores” podem dar. Só assim as mudanças não serão meramente circunstanciais e terão “bases sustentadas na educação” para que sejam “duradouras e geracionais”

Medidas que não reúnem consenso, como acontece com Magda Tilli, para quem “podem promover o oposto do que se pretende e serem contraproducentes.” A fundadora da Home Lovers revolucionou o negócio do imobiliário com o recurso às redes sociais e revela que “nunca sentiu qualquer dificuldade ou pressão no negócio por ser mulher”, apesar de reconhecer que ainda existem “casos isolados.” O mais importante é celebrar a diferença, perceber que há aspetos inatos a cada género e que é “ótimo que não sejamos todos iguais.” Recorda, por exemplo a Web Summit, onde havia o espaço Women in Tech, onde só podiam entrar mulheres, para ilustrar que, apesar das boas intenções, acabava por se promover mais separação do que integração. Quando temos “cada vez mais mulheres no topo”, já se pode ambicionar algo mais.

Para Ana Paula Ribeiro é tudo uma questão que “depende de várias vertentes e culturas.” A CEO da WecareOn admite que “nunca sentiu diferenças de género” porque também “não estava preocupada com isso.” Não “podemos iludir-nos”, quando é notório que existem menos mulheres em áreas como a tecnologia ou a engenharia. “Sente-se menos, mas ainda é uma questão”, numa carreira que começou como melhor aluna da turma e onde inovou com a sua plataforma de consultas. Na atualidade, garante que “se escolhe alguém pelas características das pessoas” e não em função do sexo. “Ponto. E deveria ser sempre assim.”

116 é o número que representa os anos que faltam para as mulheres atingirem a paridade salarial com os homens e que Inês Santos Silva utiliza para início de conversa. Na opinião da empreendedora em série e uma das mentoras do Startup Pirates Portugal, que já chegou a 40 cidades em quatro continentes, “claramente existe desigualdade.” Fala por experiência própria, pois já sentiu “desconfiança inicial em algumas reuniões por ser mulher e jovem”, e viveu mesmo de casos de falta de respeito: “Já aconteceu desprezarem-me e tratarem-me por querida, a pior coisa que me podem fazer.” Não se pode esperar que tudo mude “de um dia para o outro”, quando ainda vivemos “num mundo de homens”, com poucas mulheres “empreendedoras, CEO ou no parlamento.” Lugar agora “para uma nova geração”, que contribui para sinais que dão alguma esperança de estarmos “no caminho certo.”

Artigo originalmente publicado no Expresso de 17 de dezembro de 2016

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