Um projeto Menu

Círculo da Inovação

Já não há heróis. 
O futuro é trabalhar em rede

Pedro Miguel Oliveira

Luis Barra

Carlos Gonçalves, 
CEO do Ávila Business 
Center, empresa que tem 
espaços de coworking 
no centro de Lisboa

Análise: As empresas procuram novas estratégias para reter talento e inspirar processos criativos. O trabalho colaborativo, a partilha de experiências e a utilização de espaços coworking são algumas das soluções

No advento de uma economia tipificada como sendo de partilha e de colaboração, as expectativas e as exigências dos profissionais sofrem uma profunda mutação motorizada, essencialmente, pela banalização de tecnologias que deixaram de estar acessíveis apenas a grandes organizações. São disso exemplo as aplicações apoiadas em soluções de cloud computing; o acesso a informação extraída de sistemas de big data; a omnipresença de poderosas ferramentas de comunicação multimédia; e a facilidade do trabalho colaborativo.

A estas tecnologias devemos juntar a entrada, cada vez mais significativa, dos millennials na força produtiva e, claro, o surgimento de uma vaga de fundo de empreendedores que têm uma abordagem completamente diferente daquilo a que se convencionou definir como “posto de trabalho”. É, aliás, essa mentalidade disruptiva da geração Z que está na base do ecossistema que criou condições para o surgimento de empresas como a Uber ou a Airbnb. Estes jovens privilegiam a partilha, neste caso de carros e casas, em detrimento da posse.

Uma abordagem que é transposta para o local de trabalho, onde esperam encontrar estímulos à criatividade constantes e um ambiente caracterizado pelas tecnologias que usam, hoje, no dia a dia. Estas expectativas criam uma pressão sobre as organizações, que têm cada vez mais dificuldade em estimular e reter o talento de profissionais que privilegiam mais as experiências do que a segurança do posto de trabalho.
Estes são alguns dos condimentos que permitiram, também, a evolução do conceito de coworking — espaços de trabalho partilhados onde são disponibilizados serviços e tecnologias de apoio. Estes locais são verdadeiros centros de criatividade onde empresas e empresários de áreas distintas partilham o mesmo espaço... e acabam por partilhar experiências e capacidades num verdadeiro trabalho em rede.

“Há um facto muito importante a ter em conta: o networking que empresas e empresários fazem em espaços de coworking. É daí que podem nascer, e nascem, ideias para novos negócios e, por exemplo, se aproveitam mais-valias. Há casos, nos nossos espaços, onde as empresas aproveitaram, por exemplo, a presença de um consultor em financiamento comunitário que os ajudou a elaborar processos de candidatura a fundos estruturais do Portugal 2020. Conheço outros casos, onde as empresas aproveitaram a proximidade de uma empresa especializada em marketing digital ou, até, dos serviços de um advogado”, explica Carlos Gonçalves, CEO e Owner do Ávila Business Center, uma empresa que tem espaços de coworking no centro de Lisboa.

Portugal está a começar 
no coworking empresarial
O relatório “Global Coworking Census”, da autoria da Deskwanted, apontava para que existissem em 2013 quase 2500 espaços de coworking em 80 países espalhados pelo mundo. Outro relatório, mais recente e da autoria da deskmag, refere que, em 2015 e 2016, esse número cresceu para os 7800. Os Estados Unidos, com 781 espaços, são o país onde há mais escritórios deste tipo. Alemanha (230), Japão (129), Espanha (199), Reino Unido (154) e França (121) são outros dos países onde o coworking tem valores mais significativos. Portugal, segundo o Census de 2013, ocupava o 8º lugar, com 80 espaços de coworking.

“A crise que se viveu em Portugal nos últimos anos levou a que muitas pessoas criassem o seu próprio negócio e as empresas foram obrigadas a efetuar várias reestruturações com o objetivo de racionalizar custos. O coworking assume-se com uma resposta a ambas as necessidades.” Avança Carlos Gonçalves, como uma das explicações para o elevado número de espaços de coworking em Portugal. O responsável do Ávila Business Center também esclarece que apesar de o “coworking em Portugal está a dar os primeiros passos na área corporativa” já existem vários casos de empresas que recorrem a estes espaços: “A APR, por exemplo, é uma empresa que tem sede no Porto e que em Lisboa optou por estar num espaço de coworking”. Lá fora, empresas como a Facebook ou a Accenture seguem lógicas de coexistência entre locais institucionais e escritórios de coworking. “A Facebook, mesmo depois de ter aberto uma sede em Boston, decidiu manter os espaços de coworking que tinha na cidade, como uma forma de manter elevados os níveis de satisfação dos funcionários que preferiam trabalhar nesses locais onde existe uma maior troca de experiências. Aliás, a Accenture, em Manhattan, Nova Iorque, tem vários espaços de coworking em localizações que permitem aos seus colaboradores manterem níveis mais equilibrados entre a vida familiar e a profissional”, elabora Carlos Gonçalves, que explicou que os profissionais da Accenture passavam horas retidos no trânsito da cidade norte-americana, o que aumentava os níveis de stresse e de insatisfação.

O trabalho em rede que acontece naturalmente dentro dos espaços de coworking tira partido de uma oferta tecnológica que permite aos utilizadores desses escritórios funcionar como se estivessem, fisicamente, na sede da empresa. Esteja ela em Portugal ou em qualquer local do mundo. No entanto, a racionalização de custos continua a ser o principal motivo que leva uma empresa a procurar uma solução de espaço partilhado. No entanto, os benefícios vão além dos financeiros: “As empresas acabam por perceber que os espaços de coworking que investem em tecnologia e no conforto estão a promover a retenção de talento e o aumento de produtividade dos funcionários”, reforça o fundador do Ávila Business Center.

O coworking é apenas uma das estratégias disponíveis às empresas e aos empreendedores que se debatem com os desafios inerentes à mudança na tipificação da força de trabalho, à dificuldade de captar e reter talento, à implementação de uma cultura de inovação dentro da estrutura ou, por exemplo, à disponibilização e utilização de ferramentas tecnológicas evoluídas e essenciais aos processos de criação de valor.

Trabalho em Rede