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Círculo da Inovação

Não há mas nem meio mas. Trabalhar em rede é confiar

Ana Maria Pimentel

Nuno Botelho

No Espelho d'Água,
em Lisboa, a nova geração
de gestores do Círculo
da Inovação discutiu
o “Trabalho em Rede”

Fazer parcerias com os concorrentes diretos e indiretos é uma questão de perder o medo. Os gestores do Círculo acrescentam que é também uma questão de iniciativa. Por um bem comum

Dez gestores à conversa sobre os desafios que os novos paradigmas de trabalhar em rede impõem ao dia a dia numa empresa. Dez gestores que vão além dos conceitos de macroeconomia e das novas tecnologias. Dez gestores focados na confiança e na comunicação. Foi assim a última breakout session do Círculo da Inovação deste ano.

O quinto desafio — “Trabalhar em Rede”, que surge depois de debates sobre “Gerir e Gerar Talento”, “Digitalizar”, “Subir na Cadeia de Valor” e “Foco no Consumidor” — confunde-se com o próprio mote do projeto do Expresso, SIC Notícias e NOS, que juntou 100 inovadores da última geração para discutir o futuro das empresas em Portugal. Na tarde de quinta-feira, a moderação coube a Pedro Santo Guerreiro (Expresso), João Ricardo Moreira (NOS) e Pedro Brito (Jason Associates).

Passado pouco tempo de ecoarem as primeiras intervenções no Espelho D’Água já se percebia que em Portugal é difícil trabalhar em rede, mas que trabalhar em rede tem sido essencial para Portugal. Parece antagónico mas esta foi uma das discussões centrais das duas horas de conferência. Num país que tem sabido criar uma marca comum através da cooperação, às vezes parece difícil abrir portas para a comunicação entre concorrentes e até parceiros.

O caminho a percorrer
Ricardo Bramão, da Talkfest, que pôs os festivais de música ibéricos a comunicar, partilhar experiências e desafios, nota bem as diferenças entre a máquina corporativista espanhola e a portuguesa, “mas que há nisto um lado bom: ainda é possível percorrer um caminho”. Talvez seja cultural esta necessidade que há de os portugueses “se fecharem em si próprios”, como foi referido por todos os intervenientes. Contudo, também concordam que há provas de que quando se abrem as portas são mais as histórias de sucesso. Francisco Simão, dos CTT, lembra a da Sibs, do vinho do Porto, do calçado e do turismo, que se uniram para ganhar escala, para serem uma marca forte. Realça a ideia de que “quando não se partilha entre concorrentes o que é o core do negócio, fonte de vantagem competitiva, os consumidores ficam a ganhar.”

É aqui que separam as águas, numa expressão largamente repetida ao longo da quinta sessão. E os “mas” sucediam-se. No entanto, todos concordaram (sem mas), que trabalhar em rede com concorrentes diretos nunca pode ser partilhar os pontos centrais dos negócios. Maria Teresa Silva, da Navigator, acrescenta que deve ser sempre feito a montante numa ótica de sinergia: “Não há partilha de informação privilegiada com concorrentes, mas parcerias quando o objetivo é comum como é o caso da matéria-prima.”

Para o português, trabalhar em rede é quase uma atividade “contranatura, que não sai naturalmente e que deve ser mudada”, sugere Miguel Muñoz Duarte, da iMatch. Sérgio Pereira, da Future Fuel, lembra a dicotomia entre as “empresas que operam em Portugal para o mercado português e as que operam para o mercado estrangeiro.” As segundas, por trabalharem em parceria, conseguem “posições internacionais mais interessantes”. E isto acontece por uma questão de necessidade na maioria das pequenas e médias empresas.

Partilhar sem medo
O pontapé de saída da quinta breakout session foi dado por José Pedro Cobra, da Teixeira Duarte. Pediu que o discurso deixasse de se centrar em figuras etéreas e se materializasse porque “no fim do dia estamos sempre a falar de pessoas.” E vencer os medos. Mesmo nos negócios, um projeto individual e fechado sobre si próprio “é o reflexo de vivermos em medo”.
Libertar-se do medo significa igualmente esperança. “Confiar na rede sem estar a fiscalizar todos os processos”, acrescenta Maria Teresa Silva. Sérgio Pereira, que está habituado ao ambiente startup, conhece bem essa confiança “total” porque vive um ambiente de “paridade”. E partilha com os restantes: “Trabalha-se em rede quando isso é um atrativo para a empresa. Esse é o ensinamento que uma startup pode trazer para este círculo, e tem muito a ver com a colaboração.”

Colaboração que pode ser pedida a prestadores de serviços externos caso a empresa não tenha dimensão para alocar tantos recursos. Se isso acontecer, diz André Rocha da Frulact, tem de se estar ciente do trade of: “A empresa tem de estar disponível para ter uma organização mais contida e confiar em prestadores de serviços externos.” A seguir, juntam-se-lhe amor, capacidade de arriscar e felicidade. É que “pessoas felizes fazem mais e melhor durante mais tempo”, resume Pedro Brito.

No final, em jeito de conclusão, João Ricardo Moreira fala em comunicação, que é sempre mais do que falar e escrever — é também ler e ouvir. E sem ela não há rede que resista. E recorda Pedro Baptista, da Samsung, que dissera pouco tempo depois do arranque da conferência que nunca em nenhum tempo foi tão fácil trabalhar em rede. “Mais”, remata Pedro Brito, os mais velhos devem aprender com os jovens que têm mais coragem e “exigem trabalhar em projetos com que se identificam”. Sem medos.

Artigo originalmente publicado no Expresso de 3 de dezembro de 2016

Trabalho em Rede