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Círculo da Inovação

A paixão gera talento

Ana Maria Pimentel

Luis Barra

Ricardo Bramão, 
um dos 100 selecionados 
para o Círculo da Inovação, 
à entrada de um festival 
onde vê e ouve o que preparou 
durante o ano

Nunca se deu tanta importância às pessoas dentro das organizações, são elas o motor que as fazem evoluir. Como é que se gera talento nas empresas? Há uma visão comum a quem tem de fazer esta gestão diária: apenas uma cultura de mérito atrai talento. E a revolução tecnológica trouxe alguns desafios que só os criativos sabem ultrapassar

Na era da tecnologia o mais importante das empresas continuam a ser as pessoas. Na era da crise económica as pessoas são cada vez menos nas organizações e por isso as capacidades têm que ser cada vez melhores. Os desafios são para as duas partes, tanto do empregador que tem que oferecer uma proposta que atraia os melhores, como do colaborador que tem que se capacitar para entrar no mercado. Mais do que recursos humanos, as empresas hoje têm que ser agentes com vários talentos em carteira e muitos outros debaixo de olho.

O clube do talento

No Círculo da Inovação — projeto do Expresso, da SIC Notícias e da NOS que junta 100 gestores da nova geração, com idades entre os 25 e 45 anos — a maior parte das vezes não se fala em pessoas, fala-se em talentos. Não é exagero, o objetivo tinha que ser esse. A escolha tinha que ser feita e um dos critérios era que todos os selecionados fossem talentosos. Há um segredo que se vai aprendendo nas conversas com aqueles que foram escolhidos para este grupo: fazer o que se gosta é meio caminho andado para fazer surgir o talento.

Ricardo Bramão é um desses sortudos que é apaixonado por aquilo que faz. Consegue, aliás, dividir a vida entre duas paixões: do lado direito do coração, a música, do lado esquerdo a gestão de recursos humanos. Foi aí que a sua vida começou, a gerir pessoas sem nunca esquecer as raízes em psicologia, que provaram ser uma ferramenta essencial: “Pode-se imitar e aprender tudo menos os traços de personalidade.” A música ocupa-lhe a maior parte da vida, entre a Talkfest e a Aporfest vai criando sensação à volta da música. Gera uma ideia corporativista dos festivais de verão, para que sejam discutidos a sério, para que melhorem, sejam reconhecidos e que acima de tudo “sejam levados a sério” sem lhes tirar a diversão.

A vida dele aconteceu como os grandes amores, foi o destino. Teve a coragem de largar tudo, de fazer do sonho vida, a isso juntou capacidades que reconhece serem indispensáveis para quem quer crescer, entres elas a resistência, a luta pelos objetivos sem nunca perder o foco e a exigência que se deve ter com o próprio e com os outros.

Gerir e gerar talento é um desafio comum para quem está dentro das empresas, embora a consultoria em gestão de recursos humanos ainda ocupe uma parte da vida de Ricardo.

Na Aporfest aprendeu que é possível responder-se ao desafio de forma indireta, na gestão da equipa e na forma como se relaciona com ela. Garante que “potenciar a rentabilidade de um projeto é permitir que este cresça a nível de recursos humanos, algo difícil nos dias de hoje, mas só com estes — que têm sempre uma ideia, uma forma mais rápida de se chegar a um objetivo, uma outra experiência — se conseguirá chegar de forma mais célere a determinadas metas, porque estas são também limitadas e adaptadas a um tempo exato. Tudo hoje é visto como um custo, mas investir no recurso humano certo trará o maior crescimento.”

Se a música e os festivais são de modas, os talentos não, esses nunca passam de moda. Enquanto empreendedor está “muito ligado às pessoas”, elas e o produto nunca vão estar perfeitos “mas vão ter que estar o mais próximo que se conseguir”, nunca se pode deixar de melhorar, “nunca se pode deixar de procurar a pessoa certa para o lugar certo”.

“Atrair talento é hoje um dos aspetos mais estratégicos e importantes dentro das organizações”, explica Fátima Barros. A presidente da Anacom deixa os lugares comuns de parte e lança pistas de quem todos os dias lida com o mercado global que é a “mobilidade de cérebros”. Diz que o mercado de trabalho é um mundo aberto “à inovação e à mudança” e numa linguagem universal só pode haver um princípio fundamental, o da meritocracia.

A evolução faz com que os jovens olhem de forma diferente para as carreiras, para as empresas e para as suas posições. É raro encontrar quem ainda acredite em empregos para a vida, e por isso “procuram empresas onde há talento reconhecido, querem aprender com aqueles que valorizam”. Tendo talento e mérito como balizas, vive-se num mundo de constante aprendizagem e por isso é responsabilidade da organização dar aos colaboradores uma constante formação, para que possam evoluir: empresa e trabalhador. A maior dificuldade das empresas que querem ter sucesso é reter os talentos, e só é possível fazê-lo num ambiente de trabalho que seja um habitat natural a quem é assediado por várias empresas dando sempre uma perspetiva de evolução na carreira.

À frente da Anacom tem visto o mundo e as regras do jogo a mudar. A adaptabilidade, diz, tem que ser regra numa empresa como aquela, que é “baseada em capital humano, onde a excelência das pessoas determina a qualidade do trabalho”. E por isso sabe melhor do que ninguém que um bom trabalhador é aquele que surge na combinação das softskills com as hardskills. Uma boa formação técnica tem que estar na mesma proporção que uma formação das competências sociais, se só desenvolver um deles ser-se-á sempre limitado.

O esforço tem que ser feito de parte a parte, mais do que uma divisão por dois deve ser responsabilidade dividida em terços: empregador, empregado e Governo. Fátima Barros lamenta que em Portugal se tenha enfraquecido a capacidade de reconhecer o mérito e que seja cada vez mais difícil viver num mercado de concorrência de talento.

Artigo originalmente publicado no Expresso de 9 de julho de 2016

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