Um projeto Menu

Círculo da Inovação

Nuvem faz a ponte entre o mar e a terra

Pedro Miguel Oliveira

Nuno Botelho

A tecnologia levou o negócio a bom porto. O digital tornou-se a bússola da empresa que Miguel Moura administra

A Arqueonautas Worldwide juntou a equipamento de mergulho novas plataformas tecnológicas. A transformação digital da empresa portuguesa agilizou processos, melhorou a comunicação entre equipas e trouxe poupanças a vários níveis

O ritual repetiu-se. Dias, semanas, meses. Espreitar por uma bola de vidro e ver o imenso verde num abraço que ocupava toda a linha do horizonte. Não há como não ter inveja dos marinheiros: as vigias são as janelas com a melhor vista do mundo. Neste caso, o miradouro estava ao alcance dos arqueólogos subaquáticos da Arqueonautas Worldwide — a empresa portuguesa especialista em arqueologia subaquática com projetos em três continentes. Em abril, faziam mais um achado nas águas cor de jade da Indonésia. Uma frota de malfadados navios holandeses sepultada no fundo do Índico. Hoje, a organização dos artefactos encontrados (a sua catalogação, por exemplo) e a partilha da informação com cientistas e universidades está assente num fluxo de trabalho baseado em tecnologia.

Informação em velocidade

Do espólio encontrado, tomemos uma moeda como exemplo. Assim que chega a bordo, o artefacto é limpo e registado. A informação (fotos e vídeos incluídos) é carregada para uma base de dados desenhada tendo em conta as necessidades específicas da Arqueonautas. Este processo fica concluído ainda dentro da embarcação. Quando as equipas vêm a terra ou quando há um acesso à internet disponível, um simples upload (carregamento dos dados) faz com que, a tal moeda, fique acessível aos que participam no projeto. Estejam onde estiverem. “Hoje, temos uma equipa a trabalhar na Ásia e pessoas na Europa a colaborar, em simultâneo, no mesmo projeto. O que só é possível devido à elevada velocidade a que a informação fica disponível a todos os participantes nessa missão”, explica Miguel Moura, administrador da Arqueonautas Worldwide, empresa portuguesa que aderiu à digitalização — tema em discussão há duas semanas no Círculo da Inovação, projeto do Expresso, da SIC Notícias e da NOS que junta 100 novos gestores para debaterem as questões pertinentes para o futuro das empresas, como seja gerir talento, criar valor, trabalhar em rede e focar no consumidor, além da digitalização.

Online em alto mar

A Arqueonautas Worldwide, que tem 90% de capital estrangeiro, só trabalha com licenças atribuídas por governos. Cientistas e arqueólogos exploram os oceanos do planeta em operações que são comandadas a partir da sede no Funchal, Madeira, e do escritório em Cascais. E os desafios que levaram à transformação digital que já começamos a revelar tiveram vários imperativos: “Temos equipas espalhadas por três continentes, com fusos horários distintos, o que nos criava grandes barreiras à partilha de informação. Além disso existiam custos elevados. Seja em comunicações, seja em viagens que tinham de ser efetuadas pelas nossas equipas de especialistas.”

A troca de e-mails, algo que em termos tecnológicos pode parecer rudimentar, era, também, um problema para as equipas no terreno que usavam uma plataforma tecnológica pouco preparada para ser acedida a partir de qualquer tipo de dispositivo e em qualquer momento. O mesmo se passava com a utilização da agenda e, claro, com a partilha de documentos.
Operada a transformação digital, com a escolha de uma plataforma baseada na Nuvem (ver caixa), os ganhos são evidentes, mesmo que não sejam revelados valores concretos.

“Temos poupanças de milhares de euros. Só em viagens, poupamos mais de metade do que gastávamos antes destas tecnologias. Em vez de apanhar o avião, recorremos, com muita frequência, ao Skype For Business para efetuar reuniões com pessoas em diferentes localizações geográficas”, explica Miguel Moura. E exemplifica. “Uma universidade que está a fazer um estudo sobre um artefacto não tem de nos visitar em Portugal. Toda a informação está disponível online. Aliás, todas as dúvidas que surjam podem ser esclarecidas por nós, em tempo real, usando estas plataformas digitais.”

Menos viagens implicam ganhos de tempo evitados nessas deslocações. Tempos que são maximizados, agora, em outras atividades. Mas o maior proveito para a empresa que se dedica a fazer recuperações arqueológicas subaquáticas licenciadas por entidades públicas, e que se destinam a exposição pública, foi na fluidez da informação. “Em Moçambique, por exemplo, estivemos um ano seguido a trabalhar em alto mar e no espaço máximo de 48 horas todas as pessoas tinham acesso ao que se passava no barco em determinado dia”, justificou o administrador da Arqueonautas Worldwide. O acesso à informação em tempo real era crítico para esta empresa que atua numa área tão específica, onde a vasta distribuição geográfica das diferentes equipas agregadas a cada projeto acabou por ser conquistada quando foi dado espaço a uma verdadeira transformação digital.

Artigo publicado originalmente no Expresso de 30 de julho de 2016

Digitalização