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Círculo da Inovação

Troca de impressões digitais.pt

Ana Maria Pimentel

Tiago Miranda

Miguel Santo Amaro, cofundador da Uniplaces, um dos 100 escolhidos do Círculo, e Paulo Calçada, CEO da Porto Digital, um dos convidados

Gerar discussão e depois da conversa chegar a conclusões. Este foi o mote no Pavilhão do Conhecimento, num círculo que girou em torno da inovação e da tecnologia

A timidez inicial típica destas reuniões em que se querem ouvir as opiniões de todos parecia ter ficado fora do Pavilhão do Conhecimento. Tanto que no momento das apresentações já havia quem quisesse partilhar os desafios que enfrenta diariamente e, acima de tudo, que a “discussão não fosse estéril”, o mote e as conclusões confundiram-se na segunda Breakout Session do Círculo de Inovação — projeto do Expresso, SIC Notícias e NOS, que selecionou os primeiros 100 talentos da nova geração de gestores. Em duas horas e meia o local inspirou o tema principal — “Digitalizar” — mas ciência e tecnologia foram assuntos que dominaram a conversa.

Numa mesa-redonda — sem mesa, é certo — pedia-se a 17 selecionados do Círculo da Inovação e a três CEO convidados que partilhassem desafios dentro de “Digitalizar” (tema que sucede a “Gerar e Gerir Talento” e antecede “Trabalhar em Rede”, “Foco no Consumidor” e “Criar Valor”, os cinco desafios do Círculo), com que se defrontam todos os dias nas empresas onde estão. No final as experiências de uns e as soluções de outros deveriam produzir resultados e conclusões para que, em conjunto, todos melhorassem e de um ponto de vista geral o país beneficiasse com essa melhoria.

Feitas as apresentações foi a vez de Sofia Tenreiro, diretora-geral da Cisco em Portugal, começar a partilhar a revitalização digital da empresa que vive nesse habitat. No mercado das soluções de software a Cisco esticou os braços até ao hardware, o que dentro da empresa significou uma mudança na cultura e a criação de novas soluções de Recursos Humanos. Mudar o paradigma, um a um todos iam concordando que é inevitável quando de tecnologia e inovação se trata. Com discursos pejados de expressões importadas, o mindset destes inovadores é o driver que faz das startups grandes empresas.

E para isso acontecer todos concordaram com Ricardo Marvão, cofundador da Beta-I: há necessidade de haver “aproximação entre as grandes empresas e as startups”, partilha ou compra e venda de soluções. Celso Martinho, CEO da Bright Pixel, pôs a questão noutra escala: “Portugal tem que aprender a colaborar. Nós somos pequenos de mais para não colaborar.” Bruno Mota, sócio da Bold, pôs o acento em inovação principalmente numa altura em que é tão difícil acompanhar o frenesim da evolução tecnológica.

Num grupo de portugueses, que pensavam o país num evento organizado por marcas nacionais e com o Alto Patrocínio da Presidência da República, não podia faltar a discussão da posição do país no mercado e nas várias vertentes. Se no início se centralizou entre as vantagens e desvantagens de ser seguidor ou seguido, depressa se alargou o discurso. Num prato da balança a qualidade natural de Portugal, que encanta todos os estrangeiros, no outro as leis fiscais e laborais que desencantam empresários que acabam por preferir fugir com as sedes das empresas.

Já no início da sessão Sara Caetano tinha levantado a questão: “Com tanta dificuldade no investimento, como é que se disponibiliza orçamento para estar ao nível dos pares?” Este é um problema que tem que ser resolvido na base, com importação de soluções. Miguel Santo Amaro, cofundador da Uniplaces, lembrou que na hora de aumentar salários não compensa ter trabalhadores sediados em Portugal, uma moldura fiscal que “incentiva a precariedade”. Se fiscalmente o paradigma tem que mudar, dentro das empresas tem que haver criatividade “sem uma atitude protetora em relação ao talento”, alerta Pedro Janela, CEO do WyGroup.

Dispostos em círculo, 17 dos escolhidos discutem com três CEO convidados os desafios que encontram no dia a dia

Dispostos em círculo, 17 dos escolhidos discutem com três CEO convidados os desafios que encontram no dia a dia

Na sala não se falava na tão conhecida exportação de cérebros, mas sim na importação. Num mundo que dizem não ter fronteiras, João Ricardo Moreira lembrou que hoje “falar em Portugal, não é falar em portugueses”. Tudo porque os que ali se reuniam reconheceram que há falta de talento científico em Portugal, e não têm dúvidas que o problema é a Matemática e os seus problemas. Com um sistema de ensino que permite que se fuja à disciplina que ensina a pensar, mas que acima de tudo é a linguagem do mundo da era digital, não se conseguirá sobreviver a esta revolução sem importar cérebros.

Estava identificado o problema. Mais que qualquer outro dos que se havia falado até aqui este é o mais grave sinal que indica que Portugal pode não conseguir acompanhar a revolução tecnológica. E a simplicidade da solução ali à frente de todos no centro do círculo: desmistificar o ensino da ciência e da tecnologia. Há falta de engenheiros no país e há demasiados licenciados na área das humanas no desemprego. Esta deveria ser mensagem suficiente para que os jovens que têm que escolher os currículos académicos, mas não é. Concordaram todos que importa mostrar às crianças que a Matemática não é um bicho papão, melhorar o ensino, formar melhores professores que consigam cativar nos jovens o interesse por uma área há muito ostracizada.

Entre arremessos de microfone, na verdade um cubo azul, que ia quebrando o gelo à medida que ia sendo trocado entre oradores, o tempo era escasso para a vontade de se falar em tantos outros temas. No final a conversa continuou em grupos mais pequenos, com a habitual troca de cartões e movimentação de ideias. Estava criada a ponte entre startups e empresas.

No Pavilhão do Conhecimento discutiu-se mais que digitalização, tal como Rui Borges lembrara no início da sessão: “O menos relevante é o digital. Trata-se de transformação de negócios” e tem que se obedecer às mesmas regras. Simplesmente a digitalização é o cerne da questão porque neste momento é o cerne de todas as questões. O CEO da Plot acrescentou ainda que os “processos de transformação digital estão muito centrados nas empresas e pouco nos consumidores.”

Artigo originalmente publicado no Expresso de 16 de julho de 2016

Digitalização