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Círculo da Inovação

Para Criar Valor, ultrapassaram-se estes dez desafios

Matthew Lloyd

Gerar valor acrescentado é uma pergunta de resposta complicada, mas há quem já tenha encontrado soluções. Relembre alguns dos desafios ultrapassados pelos nossos escolhidos e que apresentamos ao longo deste mês

Stephan Morais, Administrador Executivo Caixa Capital

“O desafio tem sido selecionar para investimento as mais promissoras startups tecnológicas portuguesas, usando critérios internacionais, mas tendo em conta a juventude do ecossistema nacional de empreendedorismo e inovação. Para o conseguirmos, nestes três anos começámos por estabelecer fortes parcerias com os outros atores do ecossistema, nomeadamente com incubadoras e aceleradoras, mas também com business angels, centros de investigação e universidades. Depois aplicámos critérios rigorosos de seleção e fizemos propostas de investimento em standard internacional às empresas que mais se destacam e com maior potencial – tendo consciência que muitas vão falhar como é normal neste sector.

A segunda parte do desafio é estar o mais próximo possível destas empresas que entram no nosso portfólio e acrescentar valor, preparando-as para rondas internacionais. Isto requer muito conhecimento e uma equipa, que se tem vindo a construir e aprimorar, muito técnica e interventiva em termos de parceria com os empreendedores.

Por último fomos construindo relações muito fortes com investidores internacionais que confiam em nós para lhes apresentar boas empresas portuguesas para que eles possam realizar em paralelo connosco investimentos de milhões de euros nas empresas que já estão prontas para esse patamar. Conquistar a confiança dos investidores de topo a nível internacional em empresas oriundas de um país sem grande tradição em tecnologia foi a maior vitória do nosso trabalho conjunto com os empreendedores nacionais.”

Pedro Oliveira, Project Leader Patient Innovation

“O lançamento de uma plataforma aberta, global, multilingue na área da saúde (como o Patient Innovation) levantou inúmeros desafios e questões complexas relativas à segurança, aos diferentes regimes jurídicos, às questões de propriedade intelectual No início poucos acreditavam que o projeto pudesse ser implementado. Vários tentaram impedir que ele tivesse sucesso. Felizmente conseguimos lançar a plataforma e em dois anos colecionamos mais de 600 inovações, oriundas de uma comunidade global superior a 37.000 doentes ou cuidadores - e continuamos a crescer a mais de uma inovação por dia (contando apenas as que são aprovadas pela nossa equipa médica).”

Teresa Abecasis, Commodities and Operations Director Sovena

“Na nossa função de gestores temos de criar valor todos os dias. Melhorar um processo produtivo, decidir um investimento com retorno, otimizar as condições de um contrato são alavancas complexas que temos sempre presentes. Mas o que mais me emociona é o valor encontrado em pequenas coisas que vêm ao nosso encontro. Um exemplo disto foi o da alteração da data de cultivo de girassol de um grupo de agricultores que estávamos a acompanhar num projeto de melhorias de produtividade no girassol. Fizemos todo o trabalho técnico de análise da composição do solo, do parque de máquinas, custos das tarefas de campo. Mas foi ao constatar que o crescimento do girassol variava entre 20-30%, dependendo da data em que fora semeado, que encontramos o mais óbvio. O agricultor decide a sementeira por tradição “depois das festas” “depois do Santo Isidro” e nem sempre isso bate certo com o estado do terreno. No ano seguinte montamos um conjunto de recomendações de cultivo que incluiu a indicação por parte dos nossos técnicos da data de cultivo.”

Sandra Correia,CEO Pelcor

“Em 2010, a Pelcor recebeu a visita de uma equipa do MoMA (Museu de Arte Moderna) de Nova York. Vieram visitar a Pelcor e conhecer os nossos produtos com o objetivo potencial de compra. Escolheram uma série de amostras e pediram para que as mesmas fossem enviadas pela UPS para depois analisarem com a equipa residente. Fiquei a pensar no assunto e, como o MoMA seria um cliente tão importante para a Pelcor, decidi não enviar as amostras pela UPS, mas ir eu própria até NY, levar as amostras e fazer a reunião localmente. Posso dizer que foi a melhor opção e por causa desta “entrega” a Pelcor foi fornecedora do MoMA durante quatro anos. Um desafio ultrapassado e que só acrescentou valor à Pelcor e ao nossos negócio, além do prestígio que trouxe para Portugal nos USA.”

Pedro Paxiuta de Paiva,Diretor Euronavy Engineering

"É inerente ao ser humano a resistência à mudança, mesmo que essa mudança seja ‘apenas’ uma adaptação, que pode ser essencial, para atingir o sucesso em mercados distintos daqueles em que as empresas já operam.

A Euronavy aquando da sua entrada no mercado do sudeste asiático, sobretudo em Singapura e Malásia, viveu duas situações distintas: se no caso de Singapura a cultura de negócios é muito idêntica à Europeia, portanto sem grandes distinções, no caso da Malásia fomos obrigados a uma adaptação e aprendizagem para as quais o nosso parceiro local foi de extrema importância.

Este desafio foi ultrapassado devido à capacidade da equipa para reagir rapidamente e de forma àgil à mudança; à capacidade para aprender e apreender com o parceiro local, mas sobretudo por uma proximidade/disponibilidade constante – quer através de viagens ou de um contacto 24/7 apesar dos fusos horários – entre os gestores de negócios de ambas as partes.”

Luís Flores, CTO Introsys

“A ideia de criar a INTROSYS surgiu em 2002, num jogo de bilhar com o meu irmão. Muitas vezes as melhores ideias surgem quando menos se espera e esta foi uma delas. Na altura trabalhávamos para uma empresa inglesa que fornecia serviços para um dos maiores grupos da indústria automóvel, e entendemos que era o momento certo para nos lançarmos neste projeto. Tínhamos o know-how e, acima de tudo a vontade de arriscar, criar uma empresa portuguesa que se evidenciasse no mercado internacional pela inovação e fiabilidade. Na altura em que a indústria se estava a adaptar a uma nova realidade e a optar pelo outsourcing, nós decidimos aproveitar essa oportunidade.

Agora explicar o potencial que tínhamos à banca e aos investidores, isso foi outra conversa. No arranque, o grande apoio que tivemos foi a nossa força de vontade e o empenho dos nossos colaboradores, que acreditaram tanto neste projeto, ao ponto de muitos deles ainda se encontrarem a trabalhar connosco hoje em dia. Na perspetiva financeira, os primeiros tempos foram muito difíceis ao ponto de termos contado essencialmente com os empréstimos que eu e os restantes sócios contraímos para o kick-off.

Obviamente que isto é um ciclo, a qualidade e fiabilidade do nosso serviço gera a confiança que gera mais contratos e assim por diante. Já durante o processo de consolidação do negócio, foi muito importante o apoio dos nossos clientes que acreditaram na capacidade da equipa da Introsys para a concretização de projetos cada vez maiores e mais ambiciosos.

Não sei se aquela decisão inicial foi um momento de loucura ou de coragem, mas a verdade é que foi um momento do qual me orgulho e que valeu bem a pena. Na realidade, aquele momento de lucidez permitiu desenvolver projetos que poucos portugueses sabem que são desenvolvidos em Portugal. Por exemplo, poucos portugueses imaginam que existe know-how e tecnologia portuguesa a suportar a indústria automóvel alemã e que é na Moita que se desenvolve muita da investigação de topo, portuguesa, na área de inteligência artificial.”

Daniel Elias, Responsável Produção e Desenvolvimento Galp Energia

"Tenho a felicidade de, ao longo do meu percurso profissional, ter vivido muitas histórias positivas de desafios superados. Gostava de destacar os traços comuns entre elas:

- Desafio estimulante (no caso de contexto adverso, transformar a adversidade em estímulo).

- Alinhar os objectivos da equipa e acreditar no seu talento.

- Competir ou colaborar com os melhores na sua área de conhecimento.

- Capacidade de resiliência e superação da equipa, reconhecendo e corrigindo erros durante o processo.

Além das histórias pontuais, a nível profissional considero que devemos viver em estado de desafio permanente. Isto é, procurar fazer sempre mais e melhor, mantendo o equilíbrio entre a visão a longo prazo, objectivos de médio prazo, e resultados no curto prazo."

Pedro de Goular Mendes, Diretor de Marketing Secil

“Durante o meu percurso profissional tenho encontrado vários desafios que seriam interessantes partilhar, mas creio que o combate à commoditização de produtos indiferenciados será o desafio mais interessante neste âmbito.

Na Panrico eram constantes os desafios para garantir a diferenciação dos produtos de pão de forma versus os produtos de pão de forma das marcas da distribuição. Esta luta implicava estar constantemente a ouvir o consumidor e com isso estar sempre um passo à frente no que toca à inovação dos produtos que o mercado procurava, mas também na criação de uma ligação emocional com o consumidor final através de um forte plano de comunicação, pois seria certo que as inovações lançadas seriam em pouco tempo absorvidas pelas marcas da distribuição.

Os lançamentos de produtos como Panrico Sem Côdea ou linhas relacionadas com a saúde que saíram das tendências e necessidades identificadas junto dos consumidores foram formas de garantir que o produto não caísse na indiferenciação e assim evitar que se limitasse à guerra de preços, destruindo o valor dos produtos e da categoria.”

Pedro Antão Alves, Diretor Comercial e Inovação ENGIE

“O desafio profissional mais recente foi a criação de uma nova equipa comercial. Resultado de uma reflexão estratégica, foram integradas as funções de desenvolvimento comercial e gestão de clientes com o objetivo de tornar a empresa mais orientada aos clientes. Além da anterior equipa comercial, adicionei outros colaboradores da empresa e recrutei externamente para obter a diversidade de experiência e de competência pretendidas. O resultado é uma equipa com idades entre os 22 e os 55 anos, maioritariamente com formação base em engenharia e com metade das pessoas de cada sexo.

Para colocar a equipa a trabalhar produtivamente, elaborei inicialmente um plano de formação transversal nas ferramentas e procedimentos normalmente utilizados (hard skills). Como a empresa vende serviços de alguma complexidade e criticidade, o processo de venda é mais complexo do que o de venda de produtos. Assim, optei por um modelo mais próximo do coaching para treinar pessoalmente cada um dos membros da equipa em tarefas distintas como cálculo, propostas, apresentações, visitas, gestão de clientes, negociação (soft skills). Para tornar a equipa autónoma, atribuí a responsabilidade de gestão das ferramentas internas a cada elemento e de seguimento dos mercados-alvo da empresa.

Após nove meses, considero que o desafio já está metade ganho pois a equipa tem já autonomia para grande parte das suas tarefas e resolvem a grande maioria dos problemas entre si.”

Cláudia Ranito, CEO da Headbone

"Conceção, desenvolvimento e implementação de uma fabrica em Portugal, com as mais altas tecnologias mundiais para produzir osso sintético.

Em 2008 ainda se falava pouco em empreendedorismo, pelo que o desafio de criar uma fabrica para produzir osso destinado a vários tipos de cirurgias parecia algo impossível, principalmente para uma jovem engenheira de 27 anos. Quando recorri à banca nacional com o meu plano de negócios não recebi nenhum apoio, nem sequer nenhuma resposta, provavelmente por não considerarem ou perceberem a credibilidade do projeto. Foi na banca espanhola que recebi os primeiros apoios rápidos e eficazes para arrancar com o projeto. Passados 8 anos, a tal fabrica de osso é a Medbone, exportamos 95% da nossa produção para mais de 60 países. Somos uma empresa 100% portuguesa e uma referencia internacional na regeneração óssea, contamos com 5 linhas de produtos para o mercado da ortopedia, dentária e veterinária. Considero que é importante que um empreendedor tenha força de vontade, obviamente avaliando o risco associado, mas o essencial é não ter medo de falhar."

Criar Valor