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Círculo da Inovação

As infinitas formas de criar valor

Ana Maria Pimentel

Alberto Frias

A breakout session decorreu no átrio do Edifício Impresa

A melhor maneira de inovar é a partilha de ideias, de soluções e de problemas. Aprender a arriscar, a ouvir, a ser ouvido e a liderar pelo exemplo

Num grupo de líderes o “eu” pode ficar de parte. Nenhum dos inovadores ou dos CEO convidados estava ali para representar as suas empresas, mas nenhum deles consegue deixar a camisola em casa. Vieram sozinhos, mas às costas trouxeram as equipas e durante a sessão foram dizendo que sem elas não poderiam nunca fazer as empresas voar. São focos de inspiração para muitos jovens e até para os pares, mas também têm medos. E naquele fim de dia percebeu-se que os seus maiores medos não estão relacionados com dinheiro. Temem principalmente não saber ouvir as equipas e não ser o exemplo que acreditam ser. Mas na terceira breakout session do Círculo da Inovação, com o tema Criar Valor, no átrio do Edifício Impresa, não se falou só de medos e todos provaram ser bons ouvintes com vontade de liderar pelo exemplo.

No início, João Dias, CEO do grupo Piedade, temia que apenas se falasse dos temas “pela rama”, Verónica Soares Franco, da direção da Via Porto, estava curiosa para perceber como tanta gente de diferentes áreas de negócio podia acrescentar valor e encontrar pontos de convergência. Parecendo ter ouvido as dúvidas de Verónica Soares Franco e depois de o painel estar sentado numa roda, Ricardo Costa alude aos diferentes perfis e áreas quando inicia a moderação da sessão “porque se fosse tudo igual não havia nada para discutir” e mostra-se seguro nas convergências. Antes de se saber de que forma os 17 inovadores do Círculo, selecionados num grupo de 100, e os CEO convidados iriam encaminhar a breakout session a única certeza era que ali se ia discutir a criação de valor em Portugal.

A definição de criar valor

Durante duas horas e meia foram mais as coisas que uniram os inovadores do que aquelas que os separaram. Houve, no entanto, um conceito em que não estiveram de acordo: criação de valor. Embora às vezes houvesse quem trouxesse à discussão o conceito que aprenderam nas faculdades e nos MBA, todos queriam partilhar a sua visão. No Círculo da Inovação importa mais discutir os temas do que repetir aquilo que vem nos livros e que todos aprendem. Miguel Pina Martins, CEO da Science 4 you, é o primeiro a ter o microfone na mão e lembra que a base da inovação será sempre a criação de valor.

Hoje as empresas já nascem globais, pensam o mercado como um todo desde o momento em que criam a empresa. É verdade que a empresa de Miguel não foi pensada, a priori, para criar valor nem fruto de um sonho. Foi o projeto de final de curso que lhe foi destinado por um professor. O pensamento só veio depois, e nessa fase depressa percebeu que “não é preciso reinventar a roda, ou criar uma nova Google”, há muitas formas de inovação. E na maioria das vezes onde há inovação há criação de valor. E nem sempre tem de se criar um produto do zero. Que o diga Teresa Abecasis. No grupo Sovena trabalha com um bem que existe há milhares de anos: o azeite. E todos os dias tem de “reinventar” e tomar decisões que a levem à inovação de uma marca tão portuguesa.

Mas afinal qual é a definição de criação de valor? Até ao fim da sessão a pergunta permaneceu sem resposta. Foram tantas as soluções, equações e ideias dadas pelos participantes que só se pode concluir que há variadas interpretações e é impossível escolher-se uma delas. João Escobar Henriques, diretor-executivo de investimentos do grupo Fosun, usa a forma descontraída que lhe é característica para alertar para o “preconceito que há em relação ao investimento chinês em Portugal” e aproveita para lembrar que os investidores chineses se regem pelas mesmas regras que todos os outros que investem no país e que por isso o “sentido da criação de valor é o mesmo para os chineses que é para toda a gente.”
Até este momento da conferência a criação de valor tinha andado sempre de mãos dadas com a geração de dinheiro.

Pedro Oliveira, investigador Patient Inovation, chama à atenção da mesa: “Até parece que a Wikipédia e a TedX não criam valor nenhum. O Patient Inovation não criou valor? Isto tem impacto.” Impacto que se traduz em vidas, inovações feitas por doentes que aprenderam a lidar com as suas doenças e que depois a plataforma internacional encarrega-se de investigar e patentear para que outros possam beneficiar dessas mesmas inovações. Mas Pedro Oliveira repensa, depois de João Ricardo Moreira, NOS, lhe lembrar que “o país precisa de valor traduzido em euros”. Sim, a investigação de Pedro Oliveira também se pode traduzir além de vidas em euros.

Luís Menezes, da Unilabs, também não tem a resposta que gera a concórdia para o que é criação de valor, mas não tem dúvidas de que tem de se aprender a criar valor em Portugal e que isso só é possível com “mais conversas entre pessoas de sectores diferentes”, como se fazia ali. E levanta-se um coro de vozes a dar-lhe razão e a validar aquele pressuposto: Daniel Elias, Galp; Ana Almeida, Montepio; Margarida Pedro, Hovione; Luís Simões, Gallo; Verónica Soares Franco, Via Porto.

Nenhum deles tem dúvidas: conversar, ouvir, ser-se um exemplo para aqueles que lideram. Esta é a única forma de criar valor. E no meio disto tudo: inovar. Como lembra Pedro Paxiuta Paiva, “o produto de ontem tem de ser diferente do de hoje, e amanhã esse produto já não vai existir. Quando o concorrente chegar a esse produto já se vai com uma semana de avanço.”

Educação para o risco

João Dias diz não estar apenas preocupado com o facto de Portugal estar na iminência de ter um resgate daqui a um ou a dois anos, o que o realmente o preocupa é a falta de vontade de arriscar que já é uma epidemia do país. “É preciso educar os jovens para o risco”, e alerta que se não o fizermos enquanto país não é com os resgates a curto prazo que nos temos de preocupar, mas sim com o facto “de estarmos na mesma situação daqui a 20 anos”. Pedro Oliveira, que também dá aulas na Católica, discorda. Hoje os seus alunos já estão prontos a arriscar, já não têm medo de “partilhar e ir em frente com ideias absurdas” e lembra que se no início da conversa Cláudia Ranito dizia que “osso é osso” independentemente do mercado, hoje os seus alunos já sabem “que osso pode não ser só osso”. Lembra ainda que antes de a Renova inovar, papel higiénico era só papel higiénico, e que no dia em que apareceu um rolo colorido não deixou de ser papel higiénico, mas que passou a estar na moda oferecê-lo como presente em jantares e festas.

A conversa não teve momentos mortos, mas talvez houvesse muito mais para dizer. Mas acima de tudo, como concluiu João Ricardo Moreira, discutiu-se, mostraram-se conclusões e partilharam-se ideias. Na terceira breakout session aqueles portugueses libertaram-se dos habituais queixumes e desculpas para falar de criação de valor. Foi mais um passo para o final, quando os 100 inovadores do Círculo apresentarem ao Presidente da República as conclusões dos debates.

Artigo originalmente publicado no Expresso Economia de 17 de setembro de 2016

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