Crónicas da Cidade Santa
14h00 - 06.05.2018
Chris McGrath/getty
Igreja do Santo Sepulcro na Cidade Velha, os peregrinos rezam após a Via Sacra, a 30 de março, durante a última celebração da Semana Santa
A partir do próximo sábado, o Expresso oferece a todos os seus leitores a história da cidade de Jerusalém assinada por Simon Sebag Montefiore. Ao longo de sete semanas, o texto do historiador britânico que os leitores do Expresso já conhecem por ter produzido a biografia de Estaline, igualmente distribuída como colecionável, revelará o seu habitual rigor científico mas também capacidade para envolver o leitor. Na nova edição, devidamente atualizada para o Expresso, Montefiore explica ao que vai no prefácio: “Noutros tempos, Jerusalém foi considerada o centro do mundo, observação que é hoje mais verdadeira do que nunca, porque a cidade é o ponto de convergência de um combate entre as religiões abraâmicas, o santuário dos fundamentalismos cristãos, judaico e islâmico, um campo de batalha estratégico para o choque entre as civilizações, uma linha de confronto do ateísmo com a fé, um foco de atração do fascínio secular, objeto de vertiginosas conspirações e de uma estonteante produção de mitos por via da internet, bem como palco para as câmaras de todo o mundo nesta nossa era de permanente atenção às notícias”
O livro acaba com o dia a nascer em Jerusalém. Os muçulmanos rezam, os judeus rezam, os cristãos rezam. A cidade velha é o ponto de interceção entre as três grandes religiões monoteístas abraâmicas e, por isso, será porventura o ponto da terra que mais perto do Céu se encontra. Disputada por milhares de homens ao longo dos tempos, Jerusalém escapa ainda à cartografia humana. E de todos os mistérios que encerra, nenhum é comparável ao da Porta Dourada, que recebe os primeiros raios de sol. Uma porta fechada e que assim ficará até aos dias do fim.
“Jerusalém, a Biografia”, de Simon Sebag Montefiore, é a obra definitiva sobre a cidade mais disputada do mundo. Se a cada uma das 692 páginas correspondesse um ano, a maior parte da história desta terra junto às montanhas da Judeia ficaria por contar. “Jerusalém já foi considerada o centro do mundo e, hoje, isso é mais verdade do que nunca”, adverte o autor, ainda no prefácio deste monumental trabalho de pesquisa que o Expresso oferece aos seus leitores. O primeiro volume chega já na próxima semana.
É o próprio Montefiore a assumir que “Jerusalém, a Biografia” foi o livro que mais lhe custou escrever. “Não dormi durante três anos”, confessa, na entrevista que pode ler nestas páginas. É fácil perceber porquê. Trata-se de um trabalho sobre a cidade mais disputada do mundo e que encerra dentro das suas muralhas três dos locais mais importantes do judaísmo, cristianismo e islão. Exaustivo na pesquisa, como se de uma tese se tratasse, o livro lê-se como se fosse um romance. E o autor reconhece, no prefácio, que a abordagem não é consensual. “Ao escrever, tive sempre presente o conselho que Lloyd George deu ao governador de Jerusalém, Storrs, que era violentamente criticado quer pelos judeus quer pelos árabes: ‘Bom, se algum dos lados deixar de se queixar, o senhor será demitido’.”.
A aventura começa por volta do ano 5000 antes de Cristo, mas é em 3200 a.C., quando Uruk, a mãe de todas as cidades, no atual Iraque, já tinha 40 mil habitantes e Jericó era uma fortaleza — nesses dias, os montes perto de Jerusalém eram usados como cemitério e surgiram na zona algumas pequenas casas, junto a uma nascente. Pouco se sabe sobre o que aconteceu depois, mas em 1900 a.C. — ao mesmo tempo em que os homens celebravam rituais em Stonehenge — nascia uma pequena cidadela em Jerusalém. Os estudos arqueológicos mais recentes, revela Montefiore, mostram que a nascente era guardada por uma torre feita com pedras que chegavam a pesar três toneladas cada uma.
Em 1458 a.C., o território fazia já parte do grande reino dos faraós egípcios, que mantinham guarnições em Jafa e em Gaza. Um século depois, um rei chamado Abdi-Hepa pediu ao faraó Aquenáton que o ajudasse, enviando 50 arqueiros, para que pudesse defender a sua cidade dos reis vizinhos. De certo modo, este é o primeiro relato de uma batalha. Na verdade, a história de Jerusalém é uma sucessão de guerras, massacres, conquistas, loucura — um estado permanente de conflito. De destruição e reconstrução, de camadas que se vão acumulando e não apenas num sentido literal por toda a parte. Por baixo de qualquer local há outro local qualquer. Na origem de qualquer história há uma história qualquer. Atrás de cada gesto, de cada decisão, de cada palavra há três mil anos de gestos, de decisões, de palavras.
Não admira que a arqueologia, a que Montefiore alude, seja tão importante — há escavações por todo o lado e em cada uma existe o potencial para, de alguma forma, mudar o entendimento presente da história. E assim ganhar mais um argumento para a discussão interminável sobre a posse da cidade, uma disputa tão antiga como as pedras e tão cruel como os homens. “Jerusalém, a Biografia” é uma história de violência permanente, de tensão sempre latente, de ira seguida de acalmia seguida de ira. Desde os dias do rei David, atravessando o nascimento do judaísmo, do cristianismo e do islão, este livro é uma narrativa épica de milhares de anos de fé, de matanças, de fanatismo e, também, de vida lado a lado.
Simon Sebag Montefiore é um dos historiadores mais lidos da atualidade. Há dois anos, numa iniciativa semelhante, o Expresso ofereceu aos leitores o livro “Estaline — a Corte do Czar Vermelho”, obra que conquistou o Prémio Livro de História do Ano entregue pelos British Book Awards. Montefiore encontrou na história da Rússia um dos seus objetos de estudo prediletos, sendo também o autor da aclamada obra “Os Romanov”. Mas o historiador britânico tem uma ligação estreita a Jerusalém. Um seu antepassado, Moses Montefiore, foi fundador dos primeiros bairros judaicos fora das muralhas da cidade velha e Simon conheceu todos os recantos de Jerusalém quando era ainda um jovem. Uma experiência que o marcou.
No ano em que se assinalam os 70 anos da criação de Israel, a poucas semanas da anunciada mudança da embaixada dos Estados Unidos da América para Jerusalém, numa altura em que a guerra na Síria parece mais imprevisível do que nunca e em que cresce a tensão entre Washington e o Irão, o livro de Montefiore é muito mais do que uma sucessão raivosa de conquistas e morte. “Jerusalém, a Biografia” é a história de uma cidade, a história daquilo que move os homens e, acima de tudo, uma chave indispensável para compreender o presente.
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