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20h33 - 17.01.2018
Arranjo gráfico da caixa arquivadora desta coleção
Inéditos. Prosa e poesia nunca publicadas de doze escritores da língua portuguesa que não pode deixar de ler. Nem de ouvir
O Expresso oferece a todos os seus leitores, a partir da próxima semana, uma coleção multimédia com textos de alguns dos escritores que melhor representam a literatura portuguesa. Ao todo são doze textos que, numa iniciativa inédita, serão disponibilizados ao longo das próximas seis edições deste semanário na sua versão em papel, audiolivro e eBook. Nenhum dos textos que agora é dado à estampa nesta coleção intitulada “Inéditos” foi antes publicado. Cada volume conta com textos assinados por dois escritores portugueses. Por ordem de entrada em cena, conte com prosa e poesia nunca antes publicada de Clara Ferreira Alves, Bruno Vieira Amaral, Afonso Cruz, João Tordo, Maria Teresa Horta, Patrícia Reis, Isabela Figueiredo, Afonso Reis Cabral, Nuno Camarneiro, Isabel Rio Novo, Nuno Júdice e Matilde Campilho. Na sua versão em áudio, os textos são lidos pela cantora Rita Redshoes e pelo jornalista da SIC Bento Rodrigues. É ainda oferecida aos leitores do Expresso uma banda sonora com curadoria do maestro Rui Massena para melhor acompanhar a leitura.
Esta é uma oportunidade única para usufruir de doze textos de outros tantos escritores da literatura portuguesa que nos últimos anos se distinguiram por terem publicados obras, em prosa mas também em poesia, que marcaram a agenda literária.
Esta é também uma oportunidade singular para cada um dos leitores do Expresso poder desfrutar desses textos em vários formatos e suportes, pois estas obras tanto verterão para papel, como para audiolivro ou eBook, satisfazendo assim uma plateia que poderá apreciar estes trabalhos tanto num formato analógico como digital; ou ainda, escutando-os na leitura que deles fizeram Rita Redshoes e Bento Rodrigues.
Porém, o ineditismo desta coleção que o Expresso começa a oferecer a todos os seus leitores a partir de 20 de janeiro assenta no facto de nenhum dos doze textos ter conhecido até hoje qualquer publicação, permanecendo, tal como o título indica, inéditos. Esta é pois uma estreia. É a primeira vez que estes textos de Clara Ferreira Alves, Bruno Vieira Amaral, Afonso Cruz, João Tordo, Maria Teresa Horta, Patrícia Reis, Isabela Figueiredo, Afonso Reis Cabral, Nuno Camarneiro, Isabel Rio Novo, Nuno Júdice e Matilde Campilho veem a luz do dia. Desta vez para serem lidos e ouvidos. Como nunca.
Clara Ferreira Alves
CLARA FERREIRA ALVES
MACAU NOIR
O advogado descruzou as pernas, alisou o vinco das calças e cruzou as mãos sobre o tampo da secretária de pau preto. Um anel de ouro com uma pedra vermelha refulgia na luz da janela aberta sobre a rua. Ouviam‑se vozes em cantonês, uma algaraviada de aldeia. Macau parecia uma aldeia, quando não parecia um dormitório ou uma imitação de Las Vegas.
Se fosse a si, ia‑me embora, disse o velho. E rapidamente. Vai meter‑se em sarilhos em terra estranha. Isto não é terra para um homem se apaixonar. Muito menos por uma chinesa. Por ninguém, se quer que lhe diga. Faça a mala. Apanhe o barco ou o avião. Como em todos os lugares habitados por seitas e tribos, cada tribo pratica o casamento dentro do seu território. Os portugueses casam-se com as portuguesas, os chineses com as chinesas, os macaenses com as macaenses, os ingleses com as inglesas e por aí fora. Mais os de Hong Kong, que não são ingleses nem chineses e casam-se com as senhoras de Hong Kong. Suponho. Veja os macaenses, com as suas origens euro‑asiáticas, a mestiçagem, o patuá. Os mais cosmopolitas de todos, sem dúvida, ninguém sabe bem o que são. Os filhos da terra, diz‑se. Nem portugueses de Portugal nem chineses da China, têm antepassados de todos os lugares. Portugueses e chineses, sem dúvida, e ainda malaios, cingaleses, timorenses, vietnamitas, tailandeses, japoneses, indianos de Goa catequizados pelos portugueses e tornados bons católicos. E até africanos. Da África do Índico. Fora os que têm linhas de sangue inglês, ou francês, ou holandês. Os cruzamentos do grande império português que de tão pequeno que ficou ninguém se lembra dele. Se for a Lisboa, ninguém por lá tem ideia disto. De Macau. Da nossa existência. Dos portugueses que ficaram em Macau. (...)
Bruno Vieira Amaral
BRUNO VIEIRA AMARAL
O MAL DOS OUTROS
Num desses cafés de bairro suburbanos ainda se podem ouvir, às horas mortas entre os pequenos-almoços e o meio-dia, contadas com volúpia e azedume, histórias de escândalos, infidelidades, desordens conjugais. As tragédias distantes — acidentes, catástrofes, múltiplos homicídios, a morte de uma criança — comentam-se num tom consensual de indiferença ou de censura unânime e impessoal da maldade humana que engendra uma tristeza apenas satisfatória. São os infortúnios próximos que excitam a imaginação e a curiosidade, e permitem a estas mulheres — são quase sempre mulheres — aliviar-se dos pesados julgamentos morais que a cada momento fazem e que só raramente podem exprimir. Cultivam este prazer com requinte, demoram-se nos pormenores, interrompem o discurso quando o ruído do moinho de café retira às suas palavras gravidade e contundência e só retomam o relato quando nada mais se ouve do que o chinelar de uma empregada ou o barulho da moto de brincar estacionada à porta que, a troco de cinquenta cêntimos, oferece o seu giroflé roufenho. Contudo, nada as anima tanto como a incerteza e as versões contraditórias porque a multiplicação de possibilidades e o jorro torrencial de intrigas são mais prazerosos do que a certeza estéril de factos indesmentíveis.
Por deveres profissionais, visito alguns destes estabelecimentos, um dos quais fica nos arrabaldes de Odivelas, num lugarejo outrora bucólico, adornado nesse tempo por rebanhos de ovelhas remissas e pastores alcoólicos que entretanto perdeu o encanto saloio, os rebanhos e até os pastores, que agora são apenas alcoólicos. Chama-se o lugar — chamavam-lhe os antigos — Quinta do Sobralinho. Até meados dos anos oitenta, não havia ali mais do que meia dúzia de habitações que, não fosse o propósito da construção e a singularidade de certas soluções ornamentais, diríamos clandestinas. (...)
Afonso Cruz
AFONSO CRUZ
O ABENÇOADO
O hospital e lar situava‑se numa montanha alpina. Era inverno e estava tudo branco. O edifício, um antigo palácio de telhados negros, erguia‑se sozinho, isolado, no meio da tempestade. O táxi parou em frente ao prédio e Tristan Gould saiu. A neve poisou‑lhes nos ombros e nos cabelos ruivos e ele sacudiu‑a. Acendeu um cigarro enquanto o táxi se afastava. O silêncio era total, a neve caía oblíqua, o vento fazia os cabelos de Tristan desmaiarem sobre os olhos. Atirou a beata para o chão e pisou‑a na neve. Semicerrou os olhos antes de avançar, subiu os seis degraus de pedra da entrada e tocou à campainha. Esperou um pouco. A enorme porta de madeira pintada de vermelho abriu‑se rangendo, dolente como um joelho ferido, e da penumbra do interior surgiu o rosto de um homem calvo, bigode preto, baixo, camisa branca e borboleta no pescoço.
— Senhor Gould?
— Sim.
— Prazer.
A porta abriu‑se totalmente, num cântico rouco de madeira velha, e o homem de bigode preto, calvo, baixo, fez uma espécie de vénia e sorriu, afastando o corpo para que Tristan Gould entrasse.
— Sou o doutor Menárd, diretor deste espaço abençoado. Entre. Tenho um quarto para si, tal como me solicitou, na ala oeste, onde ficam as visitas.
Um falcão pousou na neve a uns metros da porta enquanto Menárd a fechava. (...)
João Tordo
JOÃO TORDO
AS SÚPLICAS
Sempre que Ichiro, de mãos dadas ao pai e à mãe, enquanto percorriam o caminho costeiro que delimitava a povoação e depois subia na direção dos campos, via os ilhéus, dizia:
Um dia, vou ser o rei daquelas ilhas.
O pai ria-se. A mãe apertava a mão do miúdo com mais força, com medo de que ele fosse aventuroso como o pai, à semelhança do avô. Era tão perigoso aquele mar, tão impossível a travessia. E os homens eram loucos. A loucura, pensava Jun, era uma coisa que se transmitia de geração em geração, como um círculo eternamente fechado em que tudo permanecia idêntico, só mudavam as personagens.
Ichiro pendurava-se das mãos dos progenitores e gritava: Um dia vou ser o rei, um dia. Mas Takeshi, olhando para os ilhéus plantados no meio do mar, que se erguiam das águas como uma pegada dividida ao meio, desunida, num tempo remoto, por deuses maliciosos, disse ao filho que naqueles ilhéus não existiam reis, só pássaros azuis de bicos pretos que gostavam de pousar em fila no pequeno planalto que encimava a encosta do ilhéu da esquerda, cento e vinte metros acima do mar, e um rebanho de cabras que pastava no ilhéu da direita, que era mais baixo, setenta metros de altura. Entre eles havia uma distância considerável, quarenta ou cinquenta metros de braçadas, e da costa de Hamada distava um quilómetro de mar azul, tenebroso no inverno. Mas parecem tão pertinho, disse o pequeno Ichiro, a erguer os dedos em frente dos olhos semicerrados, abarcando os ilhéus entre o polegar e o dedo indicador. Isso é porque tu estás tão longe, disse Takeshi, se estiveres dentro de água verás que a distância é enorme, como o oceano te traga. (...)
Maria Teresa Horta
MARIA TERESA HORTA
DORES
Com extrema atenção, ela tentava apagar com cuspo a sujidade que lhe manchava as pernas altas de menina esgalgada, magreza que o bibe já sem cor mal escondia; sem se importar com os pés imundos com crostas de lama seca, calcanhares já calejados de andar todo o dia descalça na terra, pisando as ervas daninhas e ásperas, onde mais se demorava a sentir‑lhes a frescura amarga e escorregadia; feridos pelos troncos quebrados, pelas inesperadas e grossas raízes pardas das árvores centenárias, pelos cardos, pelas arestas cortantes das pedras, dos arbustos mais frágeis, pelos seixos e pelos espigões que num arroubo pareciam fender a terra; e ainda pelos espinhos do roseiral das rosas rubras e amarelas frisadas, de que tanto gostava em segredo.
Mas o que enojava mais os outros era a sujidade dos seus braços magros e da estreiteza dos pulsos; da parte interior dos pulsos frágeis e quebradiços, de pele quase translúcida, onde finíssimas veias pareciam palpitar de forma velada, criança débil e pálida de rebeldia, menina estranha de súbito equivocamente aquietada na sua cadeirinha com assento de palha entrançada, expressão perdida e errante.
Só o seu olhar febril e envenenado contraria todo um aparente ensimesmamento e apatia em que ninguém acredita, ansiosos mesmo por que ela se afaste, descruze os dedos passados exemplarmente sobre os joelhos esfolados e vá embora a arrastar o leve andar de pássaro, sem outro ruído que não fosse o murmurar baixo e suspeitoso de uma dúctil cantilena triste, transformada em sussurro, voz fraca e sem qualquer expressão ou melodia, como se na realidade se tratasse de uma ameaçadora ladainha ou reza transfigurada. Feitiço, mesmo, quem sabe...
Então as pessoas desviavam os olhos afastando‑se, como se estivessem assustadas ou se sentissem comprometidas, numa espécie de remorso a morder‑lhes as consciências. (...)
Patrícia Reis
PATRÍCIA REIS
CHAVE DE ENTENDIMENTO PARA UMA SINFONIA PERDIDA
Quando o teu corpo, como uma sonata, se mexeu, contei os quatro movimentos e pensei em Mahler. Não perguntes porquê. Talvez por causa de Alma e de Freud. Talvez não saibas a história. Pouco importa. Ou, na verdade, importa que saibas. Mahler amava a mulher e era traído. Freud conversava com o compositor. Ouvia-o e fumava. À época, Mahler compunha a sinfonia a que nunca quis chamar nona, batizando assim a obra de poema sinfónico. Parece existir uma superstição qualquer, mas sobre isso nada sei. Não, espera, sei: há algumas mortes de músicos imediatamente a seguir a terem concluído a composição de nonas sinfonias. Parece estranho, porque Mahler deixou a décima por terminar, embora tenha “A Canção da Terra”, que, para todos os efeitos, se apresenta com a estrutura de uma sinfonia. O compositor a brincar com o destino. Sim, pode ser. A imaginação, aliada ao receio, constrói o que quer, até o inesperado.
Tu gostas de Mahler? Sofria. Por ter qualquer coisa no coração, uma corda partida. A mulher. Uma mulher é uma coisa, a mulher é outra.
Foi em tudo isto que pensei quando te vi mexer no assento, o teu corpo numa lentidão que não era preguiça, e pensei na sua forma e em como te poderia desenhar: virado para a frente, a mão no maço de cigarros, o olhar para o lado, como quem prepara uma qualquer frase e, depois, o corpo que se encosta à cadeira, desistindo de partilhar. Eu fizera vinte e dois anos. Estivera entretida. Havia uma música de Natal que ocupava a minha cabeça, mas, como tenho sempre uma música na cabeça, não era uma surpresa.
O que me surpreendeu foi o movimento do teu corpo, essa melodia escondida, depois a voz, o vocabulário e, mais tarde, os textos como escalas, andamentos dentro dos movimentos. Um rendilhar de palavras que compõem, ainda agora, toda a ideia que consegues dividir pela matemática. Espera.
Oiçamos o rondó. Movimentos lentos ficam-te bem, já to disse. E eu preciso da lentidão para pensar, para desenhar melhor, apesar de viver numa vertigem que ninguém parece conter ou parar. Acredito que a culpa seja minha. Nunca pedi para ser parada. (...)
1º VOLUME 20 DE JANEIRO
Clara Ferreira Alves e Bruno Vieira Amaral. Oferta de Caixa Arquivadora
2º VOLUME 27 DE JANEIRO
Afonso Cruz e João Tordo
3º VOLUME 3 DE FEVEREIRO
Maria Teresa Horta e Patrícia Reis
4º VOLUME 10 DE FEVEREIRO
Isabela Figueiredo e Afonso Reis Cabral
5º VOLUME 17 DE FEVEREIRO
Nuno Camarneiro e Isabel Rio Novo
6º VOLUME 24 DE FEVEREIRO
Nuno Júdice Matilde Campilho
SOB ESCUTA
RITA REDSHOES
Muito antes de ser conhecida como Rita Redshoes, Rita Pereira fez parte de um grupo de teatro, foi vocalista dos Atomic Bees e integrou, enquanto teclista, a banda que acompanhava David Fonseca. Em 2008, publicaria o seu álbum de estreia. “Golden Era” chegaria a Disco de Ouro por vendas superiores a dez mil exemplares. Em 2009 colabora com Legendary Tigerman no álbum “Femina” e, no ano seguinte, publicaria o segundo álbum, “Lights and Darks”, onde contou com a participação de Dana Colley, saxofonista do Morphine, Pedro Gonçalves dos Dead Combo ou o próprio Legendary Tigerman. Em 2011, esta dupla seria também a responsável pela banda sonora de “Estrada de Palha”. Comporiam também para o filme alemão “Der Schlingel — O Facínora”. Voltaria ao teatro, desta vez para crianças, e com Carla Maciel, em “Frágil”, que em 2014 estreou no CCB. Um ano depois publicaria o seu terceiro álbum, “Life Is a Second of Love”. Em “Inéditos”, para o Expresso, é dela uma das vozes que lê os textos escolhidos para este colecionável.
BENTO RODRIGUES
É um dos rostos da informação da SIC, onde entrou já lá vão 23 anos. Apresenta regularmente o “Primeiro Jornal”. Para a história ficará a forma como, ao celebrar o 25º aniversário daquela estação de TV, abriu por diversas vezes o “Primeiro Jornal”, com entradas épicas em Aveiro e Coimbra ou ao sobrevoar de helicóptero a cidade de Lisboa. Ainda no ano passado, destacou-se também por ter contestado de forma veemente as controversas declarações de Constança Urbano de Sousa, então ministra da Administração Interna, ao ter colocado um post na sua página pessoal da rede social Facebook com os nomes de parte das vítimas dos fogos florestais, em Portugal, “que nunca mais terão férias”. Neste projeto de colecionáveis do Expresso é uma das vozes que lê os textos dos escritores escolhidos.
RUI MASSENA
Por estes dias, Rui Massena ocupa-se com um novo projeto — Rui Massena Band, que nasceu da vontade de experimentar para lá do universo da música clássico. Estreou-se em novembro de 2017, no Centro Cultural de Belém, e está atualmente em digressão. Antes já havia editado “Solo” (2015) e “Ensemble” (2016), este último em colaboração com a Czech National Symphonic Orchestra, tendo chegado ao primeiro lugar do top de vendas em Portugal, feito raro para um disco de música clássica. Massena será, porém, mais conhecido do grande público por ter protagonizado a série de televisão “Música Maestro”, após ter abandonado a direção artística e o cargo de maestro titular da Orquestra Clássica da Madeira, que desempenhou entre 2000 e 2012. Foi também programador de Guimarães 2012 e maestro convidado da Orquestra Sinfónica de Roma. Neste projeto do Expresso, é ele o autor da seleção musical sugerida para acompanhar a leitura dos textos.
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