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Círculo da Inovação

ADN dos Açores está a mudar. Mas com raízes

Tiago Oliveira

António Pedro Ferreira

O Expresso apoia os Encontros Fora da Caixa, projeto da CGD que percorre o país com uma série de debates sobre os desafios 
e o futuro das diferentes regiões

Arquipélago quer assumir-se como uma nova centralidade e aproveitar a visibilidade que tem ganho

Nunca se falou tanto e tão bem dos Açores. Desde sempre afamadas pela sua beleza natural e produtos agrícolas de excelência, as ilhas têm finalmente conseguido aliar essa vertente a uma projeção global que tem permitido quebrar recordes no turismo e atrair novos negócios. Só no ano passado, ultrapassaram-se as 2,2 milhões de dormidas e os €90 milhões na hotelaria tradicional, enquanto a plataforma de minissatélites da ilha de Santa Maria já recebeu propostas de 14 consórcios para lançar foguetões.

É um arquipélago virado para o espaço e para o mundo que fez da insularidade parte integrantes de uma identidade que se quer afirmar como uma nova centralidade. “Trabalhamos para esse desígnio num mundo que está a redefinir as suas prioridades”, afirmou Marta Guerreiro. A secretária regional da Energia, Ambiente e Turismo do Governo Regional dos Açores foi uma das presenças no XXIV Encontro Fora da Caixa, que escolheu o Teatro Micaelense, em Ponta Delgada, para mais etapa do ciclo de conferências da CGD que, com o apoio do Expresso, tem percorrido o país.

A governante destacou a “determinação em concretizar um modelo social próprio” que passa pelo “desenvolvimento sustentável” e que “não seria possível sem a autonomia regional” conquistada no pós-25 de Abril. Percurso longo de correção de assimetrias que ainda está longe de estar terminado e para o qual também contribuiu a adesão à então CEE e a posterior atribuição do estatuto de ultraperiferia.

“Os Açores não são um universo fechado. Tem muitos elementos de contacto com o mundo”, lembrou Jaime Gama, para quem “há ilhas com populações pequenas que têm melhorado muito com a atração de novas experiências.” Na opinião do atual presidente do Conselho de Administração da Fundação Francisco Manuel dos Santos e do Novo Banco Açores, é notório que o crescimento atual “tem potencial” pelo que é urgente estabelecer um “compromisso entre financiamento local, nacional e europeu” que capacite o tecido económico a criar bases sólidas além do boom do turismo.

Para Cíntia Machado, não há dúvidas: “Temos que competir sendo melhores, tendo mais qualidade. Se fizermos igual, vamos ficar para trás, não conseguimos ir lá pelo preço.” A presidente do Conselho de Administração da Lotaçor falou do caso específico do peixe açoriano para sustentar como alguns dos pilares económicos de sempre das ilhas têm agora que lidar (“salutarmente”, fez questão de dizer) com o turismo e as preocupações ambientais. “Não podemos estar sempre a explorar recursos escassos”, esclareceu. “O nosso desafio para o futuro é acrescentar valor.”

Segundo ato

“Passamos de uma economia de subsistência para uma de mercado, e isso acarreta os seus desafios”, garante José Mancebo Soares. O gerente da Unicol fala do “escoamento e valorização” como os dois grandes desafios do sector dos laticínios, sobretudo por serem difíceis de conciliar sem que “o preço seja utilizado como arma de arremesso”. É “o mais difícil”, mas o caminho tem que ser o da abertura a mercados externos, o que pede a renovação de infraestruturas que estão desatualizadas para aumentar a competitividade.

Se “o tempo a que estamos a assistir na Europa é como se fosse o final do primeiro ato”, José Félix Ribeiro defende que os Açores têm que perceber qual “deve ser o seu papel neste segundo ato”. Algo que segundo o economista terá que ficar intrinsecamente ligado à posição geográfica do arquipélago. “A biotecnologia azul é muito importante. Não sabemos se há vida em Marte e também não sabíamos que havia no fundo dos oceanos. Há e está aqui”, atirou. Existem várias reservas de terras raras (substâncias essenciais para a produção tecnológica) na região, assim como outros depósitos de minérios cuja exploração podem trazer uma nova indústria. “Temos que ir procurar as especiarias, as coisas de muito valor e pouco peso”, defendeu.

Futuro que também pode passar pelo aproveitamento das renováveis, sobretudo a geotermia. “É preciso investir muito no início”, concede o presidente do Concelho de Administração da Empresa de Eletricidade dos Açores, Duarte Botelho da Ponte, mas trata-se da energia que pode ser mais rentável dadas as condições naturais do arquipélago. O responsável revelou que o objetivo dos projetos já a decorrer é “aumentar a potência” e ultrapassar brevemente os 50% de eletricidade renovável. “Não olhem para nós como um parente pobre. Nós somos a projeção da Europa por esses mares fora”, assegura o antigo presidente do Governo Regional e da Assembleia da República, Mota Amaral.

Economia