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Os millennials são a geração do burnout? Não, somos todos

Catia Mateus

FOTO Getty Images

O esgotamento profissional extremo custa às empresas €329 milhões a cada ano

O esgotamento profissional tornou-se o palavrão dos tempos modernos. Não é monopólio dos trabalhadores mais jovens. É um problema de todas as gerações

Filho de bancários, Ricardo (nome fictício), 35 anos, sempre sonhou com uma carreira de sucesso na área financeira. Formou-se em Economia e integrou uma das multinacionais de consultoria de topo no mercado nacional. “Gostava de tal maneira do que fazia que perdia a conta às horas de trabalho”, recorda. Viveu a um ritmo alucinante e competitivo meses a fio. Dois anos depois, os primeiros sinais de desgaste começavam a aparecer. Estava sozinho, tinha perdido o contacto com a generalidade dos seus amigos, todos os seus interesses se direcionavam para o trabalho e “simplesmente não sabia o que fazer no tempo que tinha livre”. Como não sabia, “trabalhava”, confessa. Este millennial foi diagnosticado com uma síndrome de burnout (esgotamento profissional) e pediu ajuda. Está em tratamento e afastado do trabalho há meses.

Ricardo dá voz a uma polémica que nas últimas semanas ganhou eco nas comunidades de gestores de recursos humanos, psicólogos e psiquiatras a nível mundial, depois de Anne Petersen, repórter do “Buzz Feed” especializada em questões de trabalho e carreira, ter publicado um artigo em que defendia que a geração millennial, nascida entre 1985 e a viragem do milénio, se tinha tornado a geração do burnout. O tema tornou-se viral nas plataformas sociais e ganhou destaque nos meios de comunicação internacionais, como a CNN, com vozes discordantes a surgirem um pouco em todos os quadrantes. Pode ou não dizer-se que uma determinada geração é a dos que sucumbem ao desgaste profissional extremo? Os especialistas defendem que não, mas reconhecem que há maior ansiedade associada às questões profissionais entre os millennials do que em gerações anteriores e que isso tem impacto na saúde mental deles.

Daniel Sousa, professor e diretor da clínica do Instituto Superior de Psicologia Aplicada (ISPA), reconhece que a entrada no mercado de trabalho de uma geração muito orientada para a tecnologia, competitiva e ambiciosa mudou as regras do jogo e criou novos desafios no campo da prevenção da saúde mental e dos riscos psicossociais dentro das empresas. “Uma avaliação e prevenção que está a falhar ou que nem sequer é feita”, afirma. Mas dizer que os millennials são a geração do burnout é um cenário que o psicólogo recusa por completo. “Não existem estudos que nos permitam fazer esse tipo de inferência geracional”, defende acrescentando, porém, que há matéria que comprova a existência de uma correlação entre, por exemplo, contextos económicos mais adversos — como o que recentemente vivemos em Portugal — e a doença mental. E, nessa medida, a forma como hoje trabalhamos e as circunstâncias em que o fazemos (em termos de vínculo contratual, salários, horários), naturalmente, “têm impacto na nossa saúde mental”.

Um problema transversal

Para Daniel Sousa, a síndrome do burnout é um resultado dos contextos de trabalho atuais mais competitivos e concorrenciais (onde os millennials assumem um peso crescente já que representam quase a maioria dos trabalhadores ativos a nível global), mas afeta as várias gerações de trabalhadores e não apenas os mais jovens. Por outras palavras, não há até agora evidências científicas que possam comprovar que há uma maior prevalência entre profissionais de determinada faixa etária, como sugere Anne Petersen. Um estudo realizado pelo centro americano Talent Innovation revela que 33% dos millennials americanos, em carreiras qualificadas, sofrem de distúrbios de ansiedade ou depressão num patamar que afeta a sua atividade profissional. O estudo conclui também que esta percentagem é superior à identificada em profissionais mais velhos. Mas a inexistência de dados anteriores que permitam comparar os níveis de ansiedade da geração millennial com os de outros profissionais quando tinham a mesma idade não permite que se assuma como conclusão que esta geração é mais ansiosa ou mais propensa a burnout do as outras.

Este palavrão dos tempos modernos traduz uma situação de esgotamento físico e mental que está associada ao exercício da profissão em condições físicas emocionais, cognitivas e comportamentais desgastantes e acima da capacidade do profissional para lidar com elas. Tanto afeta jovens em início de carreira como executivos de topo — o caso de António Horta Osório é disso um exemplo — e é transversal a todas as profissões e hierarquias, ainda que vários estudos demonstrem que há carreiras com maior incidência de casos de burnout (médicos, enfermeiros, professores, forças de segurança). “Tipicamente, os profissionais mais expostos a riscos de burnout são perfeccionistas e muito focados no trabalho e isso encontramos em todas as profissões, hierarquias e idades”, reforça.

O stresse laboral está na origem de 50% a 60% do absentismo nas empresas europeias, segundo contas da Fundação Europeia para a Melhoria das Condições de Trabalho, e está na base do burnout que é “uma das mais graves consequências dos riscos psicossociais emergentes em ambiente laboral”, como referia recentemente ao Expresso Maria Antónia Frasquilho, médica especialista em psiquiatria e medicina do trabalho. São 12 as etapas que levam o profissional da paixão à exaustão profissional (ver caixa) e neste percurso são vários os fatores que podem influenciar a saúde mental dos profissionais. Entre eles estão as longas jornadas de trabalho, a pressão para estar sempre online e o esbater de fronteiras cada vez maiores entre o tempo para a profissão e o tempo para a família, a maior fragilidade financeira decorrente de vínculos contratuais precários e salários baixos, a ausência de uma visão de futuro em termos de progressão profissional e de estabilidade na carreira ou outras questões que moldam o panorama atual do emprego e afetam profissionais juniores e seniores.

A Ordem dos Psicólogos e a Associação Portuguesa de Psicologia da Saúde Ocupacional estimam que em 2016 (dados mais recentes) cerca de 14% dos profissionais no ativo em Portugal sofriam de burnout e 82% estavam em risco elevando de exposição à doença. Daniel Sousa acredita que o número seja superior. “Não há um levantamento atual sobre esta matéria, e o conceito de burnout roça com o de ansiedade e esgotamento, é difícil de diagnosticar o que dificulta a avaliação.” O docente recorda que “em cada cinco portugueses, um sofre de perturbações psicológicas”. O bastonário da Ordem dos Psicólogos, Francisco Miranda Rodrigues, quantificou ao Expresso o impacto do burnout para as empresas: “A perda de produtividade gerada pelo absentismo causado por problemas de saúde psicológica pode custar às pequenas e médias empresas cerca de €212 milhões por ano e às grandes empresas €117 milhões.” No total €329 milhões. Um número que coloca os profissionais em sintonia na defesa de que é fundamental tratar a questão da saúde mental dos profissionais como prioritária no país. Tanto mais que não se trata de um problema isolado ou restrito a grupos profissionais e perfis específicos, é um problema nacional.

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